Jonas

Jona Katakomben

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, III Domingo Comum B: Jonas 3,1-5.10

Que belo conto bíblico, este pequeno livro de Jonas!
Escrito no pos-exílio, no tempo de Esdras e Neemias, o livro de Jonas tem uma mensagem cheia de sentido profético temperado com uma profunda ironia.

Deus mandou Jonas a Nínive. Nínive não era uma cidade qualquer. Era a capital dos Assírios. Era o símbolo da opressão e da inimizade,  de tudo o que povo de Israel por lá sofrera em 60 anos de cativeiro. E é para lá que o Deus de Israel envia o “pobre” profeta… Será que JaHWeH  acredita mesmo que daquela cidade se pode fazer alguma coisa? E não é JaHWeH o Deus (só) de Israel?

Esse tempo de Esdras e Neemias era o início de uma nova fase na história de Israel, claramente nacionalista, com uma visão elitista da salvação.  Quem era contra Israel era contra Deus. E quem era contra Deus não “merecia” salvação.

Este livrinho de carácter didático, num género literário de uma „novela“ ou conto, e que na Bíblia conhecemos pelo nome de “Livro de Jonas”, apresenta uma outra visão: JaHWeH é o Deus universal,  a Sua salvação destina-se a todos os povos e nenhum será excluído, nem mesmo o povo de Nínive, “grande cidade aos olhos de Deus”.

Conhecemos o resto da história. Jonas tenta fugir à tarefa que Deus lhe confiou, tomando um navio que se dirigia para ocidente (no sentido oposto). Um peixe salva-o do afogamento para o reconduzir ao ponto de partida. Contrariado, Jonas vai a Nínive. A sua pregação não é de muitas palavras. Nem têm nada de boa nova, só ameaça. E não é que os ninivitas mesmo assim se convertem e “imediatamente” reagem com iniciativas de conversão?!

Jonas, em vez de se alegrar, resmunga com Deus.  Jonas é “um teimoso que queria ensinar a Deus como se fazem as coisas” .   E “os teimosos de alma, rígidos, não entendem o que é a misericórdia de Deus” (Papa Francisco, homilia na missa de 10.10.2017).  Afinal, ele pregava a ameaça de destruição, mas Deus que o enviou antes de pensar em castigo sempre pensou que Nínive iria ser testemunho da Sua misericórdia.

Conhecemos bem esses padres e pregadores de ameaças, de moral sem misericórdia. Esses que pretendem ditar a Deus o castigo que Ele deve aplicar a quem não cumpre.
Conhecemos bem essa visão nacionalista da salvação: „nós“ somos os eleitos; os „outros“ – os diferentes – não têm salvação possível. Por isso nem vale a pena gastar tempo com eles. E os outros são todos esses que nós não aceitamos como sendo dos “nossos” ou como sendo “prevaricadores”.  Uma visão universalista, aberta, generosa e misericordiosa da salvação de Deus como a quer o Papa Francisco poderá abrir à Igreja novas perspectivas. Importante é que os cristãos de hoje não se recusem a ir e a entrar  nas muitas Nínives do nosso tempo, na esperança da mudança.

jn
 

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Voz de Deus no coração

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A propósito do texto proposto para primeira leitura deste domingo (14.01.), II domingo comum B: 1 Samuel 3, 3b-10.19

Um jovem escuta o chamamento de Deus e tem dificuldade em discerni-lo. Um crente “carismático” e com uma fé amadurecida ajuda este jovem a identificar a voz de Deus no meio das vozes… A novidade e o totalmente “outro” da interpelação de Deus necessita de ser aprendido.  Deus não se impõe nem pela força nem pela majestade, mas revela-se numa palavra humana, de forma incarnada, discreta, silenciosa.

O Deus que se revelou a Moisés como “Eu sou aquele que sou” espera antes de mais um “aqui estou”: o Deus que se apresenta como o sempre presente espera também de cada ser humano que se abra na fé a esta presença diante da Presença, nesta disponibilidade que permite escutar, nesta prontidão para acolher o convite à amizade.
O jovem Samuel viveu num tempo anterior aos grandes profetas de Israel, esses que sem inibições se apresentavam em público como portadores autorizados da “Palavra de Deus”. A Palavra de Deus era no tempo de Samuel mais feita do discernir do que do proclamar. Samuel mesmo vai ser enviado por Deus para a escolha de David entre os filhos de Jessé. E Deus diz-lhe: “não te deixes impressionar pelas aparências! … o homem vê as aparências, mas JaHWeH olha o coração” (1 Sam 16,7). É este discernir feito de um olhar para além das aparências e de um ouvir para além dos ruídos que os crentes de Israel têm de aprender.

Necessitamos de homens e mulheres de fé que ajudem a discernir onde é que a Palavra de Deus se faz ouvir. Necessitamos de místicos que ajudem a “ver” e a “sentir” a presença de Deus na nossa vida.
Necessitamos de liturgias que tenham mais silêncio e mais escuta. E que a palavra de quem tem o encargo de “pregar” respeite mais a voz (vocação) de Deus que se faz ouvir no coração dos crentes.

jn
11.01.2018

 

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Israel e os povos

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A propósito do texto proposto como primeira leitura para a festa da Epifania do Senhor, celebrada a 6 ou a 7 de janeiro:   Isaías 60,1-6
Leia antes o texto bíblico!

A consciência de que Israel era o povo de JaHWeH, eleito entre todos os povos, vinha desde há muito.  Mas ao tempo em que este texto do livro do profeta Isaías foi escrito – um texto pós-exílio, atribuído a um autor desconhecido habitualmente designado por “Trito-Isaías” – a eleição de Israel era tudo menos evidente. Jerusalém era uma cidade em ruínas. O povo estava desmoralizado. O futuro era  “sombrio”. Muitos se perguntariam: “que quer dizer Deus, quando nos diz que somos o seu Povo”?!

Numa situação como esta, o profeta anuncia o sonho mais ousado que este povo minúsculo e esmagado podia sonhar: a sua cidade havia de ser o centro do mundo, lugar de peregrinação de gente de todos os povos, convergência de reis e senhores, capital ornada de riquezas e tesouros…. Este sonho retrocedia ao tempo de Salomão e aos mitos que à volta da sua figura se tinham criado, mas nunca se tinha realizado, nem sequer em indícios. Será que algum dia se viria a realizar?! Será que algum dia os povos de toda a terra haveriam de acorrer e reconhecer nesta cidade e neste Povo de Israel em toda a sua fragilidade a presença de Deus salvador?!

O evangelho de Mateus responde com uma história igualmente sonhada, igualmente irrealista: com Jesus e em Jesus, o filho de Maria e de José, cumpre-se a profecia do livro de Isaías e aí estão – a ilustrá-lo – os três magos do oriente. Acorrem a Jerusalém e procuram a luz de Deus. Seguindo a estrela do “Rei” dos Povos, trazem as suas riquezas como prenda para este Menino que eles encontram sem sinais de qualquer grandeza. Revela-se na fragilidade deste Mmenino o Deus para todos os povos. JaHVeH é finalmente reconhecido para além das fronteiras nacionais de Israel.

Em Isaías como no evangelho de Mateus está também no centro deste sonho a questão da identidade de Israel, nem sempre assumida de forma consequente, pelo menos por aquilo que os textos de alguns profetas e dos evangelhos nos testemunham. Israel era (e é) Povo eleito de JaHWeH, sim, mas eleito para ser no mundo testemunha da sua salvação oferecida a todos. O sonho só o será verdadeiramente realidade na medida em que Israel na sua postura e na sua vida apontar para Deus. Os Povos de toda a terra acorrerão a ele, não por causa do povo em si ou de Jerusalém sua cidade, mas na busca de Deus, movidos pela inquietação de quem anseia por mundo melhor onde a salvação da salvação brilhará como o sol faz brilhar as pedras da cidade de Jerusalém ! E aquilo que aqui se diz  de Israel, vale para a Igreja e para todos os que se sentem membros do “Povo de Deus” !

Se quiser também pode ler o comentário ao texto do evangelho da Epifania do Senhor em reflexão dos arquivos deste blog:
https://jamnunes.wordpress.com/2015/01/02/deus-de-todos-os-povos/ 

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Bênção da passagem de ano

23659B67-754F-43C5-977E-DD5B7498F078Ó Deus:

Tu, Criador do tempo
e Fonte da eternidade,
faz das nossas horas
e dos nossos dias
tardes e manhãs
na semana da criação!

Tu, Companheiro
dos nossos caminhos,
faz dos nossos instantes
momentos de encontro
eternidades do amor
que salva e permanece!

Tu, Relojoeiro da História
de um mundo em movimento,
abençoa de paz os nossos anos,
orienta na justiça os nossos séculos,
perdoa a ilusão dos nossos milénios,
faz do nosso tempo sede de Infinito!

Jn

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O que faz a família sagrada

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A propósito da celebração do domingo da sagrada família e do texto proposto para primeira leitura : Ben-Sirá  3,3-7.14-17a 

Uma semana depois do Natal, a liturgia da Igreja coloca-nos diante da imagem da Família de Nazaré. As prepcupações pastorais levaram a fazer deste domingo o dia da família. Família de Nazaré, modelo de todas as famílias.

A importância da família para a estabilidade da sociedade é reconhecida desde que há memória na humanidade. A consciência de que a família é o melhor espelho das crises e instabilidades da sociedade é algo de moderno e não pára de crescer. A família é o lugar onde se manifestam e se vivem na sua forma mais intensa os fortes e os fracos da sociedade. É, como nenhum outro, espaço onde se vive o carinho e o amor, onde se experimenta segurança e abrigo, onde cada um pode ser como é. Mas a família pode ser também lugar de violência, de violação da personalidade, de sofrimento calado… a caricatura horrível de si mesma.

Creio que a Igreja faz bem em acentuar a importância da família. Propõe e põe à disposição dos que, apesar da consciência das suas fragilidades, ousam “formar” família uma celebração-sacramento, um sinal da presença de Deus para este desafio de viver esta espiritualidade do “uns aos outros”. Mas seria bom não ignorar a realidade. A família não é santa em si. É uma instituição social capaz do melhor e do pior. O que faz a família santa é o amor que nela se vive de forma “exemplar”. É santa, sagrada, quando nela o amor germina vida, cresce e faz crescer,  vive e faz viver. Mas quando o amor falta… as normas de bom comportamento e regras sociais do tipo daquelas que aponta o  livro de Ben-Sirah pouco ajudarão.

  Se quiser, pode ler também a reflexão sobre o evangelho deste domingo, Festa da Sagrada Família, aqui disponível nos arquivos deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/12/26/uma-familia-um-povo-uma-humanidade

 

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Ele aí está: um Menino nos foi dado

Comentar a Palavra de Deus em dia de Natal é acreditar que ela se realiza, que acontece aquilo que proclamamos, hoje, no mundo em que vivemos.   Nesta linha aqui fica um pequeno comentário ao texto da primeira leitura nesta noite de Natal (Isaías 9,1-6):

„O Povo que andava nas trevas viu uma grande Luz !“ (Is 9,1)

É a hora de proclamar por esse mundo além
às Nações Unidas e aos povos desavindos
(na Ucrânia, na Síria, Istambul, Jerusalém…):

O povo que anda nas trevas
já vê uma grande Luz

Terminou a noite do jugo
está a chegar ao fim a opressão

Calou-se o ruído dos tanques e bombardeiros
as metralhadoras e o o grito dos soldados

Já se queimam as vestes manchadas de sangue
e a reconciliação distribui a veste branca da paz

Erguem-se à procura da justiça os pobres
e os deserdados na esperança do seu direito

E ninguém mais ousará divinizar a vingança e o castigo
depois de ter descoberto um Deus amigo

E Ele aí está: um Menino nos foi dado:
o mensageiro do amor, o Príncipe da paz !

 

Bom Natal a todas as leitoras e leitores deste blog !

 

 

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Advento com Natal à vista

Quarto domingo do advento. Texto da primeira leitura: 2 Samuel 7,1-5.8b-12.14a.16

O calendário tem destas coisas: pode acontecer, como é o caso deste ano, que o quarto domingo do Advento seja já a véspera de natal… Pode acontecer que o calendário civil faça teologia. A espera conduz inesperadamente ao acontecimento. O advento desvenda o mistério do natal. O „menino“ esperado desde David, descendente que „construirá“ no mundo „um palácio ao nome“ de Deus, é anunciado a Maria e a José, jovem casal sem palácio nem mesmo sem uma casa onde a grávida possa dar à luz…

Às vezes a história avança à velocidade do voltar de uma folha do calendário: o advento de repente é natal !

Se quiser leia ainda o comentário ao quarto domingo do advento aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/12/19/a-deus-nada-e-impossivel/

 

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