Servos de JaHWeH no nosso tempo

A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo (21.10.2018), 29º domingo do tempo comum B: Isaías 53,10-11:

Aprouve ao Senhor esmagar o seu Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.

À chamada de atenção que fizemos no Facebook para a “canonização” – proclamação de santo – de Oscar Romero, que aconteceu no passado domingo (14.10.2018) em Roma, um dos leitores comentou a nossa notícia desta maneira: 

“Oscar Romero era um homem bom, naquela altura lutava por palavras contra a ditadura militar que dominava El Salvador, o que acho bem. Digamos:  um revolucionário pacífico, mas que de Santo nada tinha”.

A religiosidade católica popular e um cristianismo tradicional, alimentados sem dúvida por uma pregação conscientemente “conservadora”, transmitiram e continuam a transmitir esta imagem de santidade que se reflecte em tomadas de posição como esta do nosso leitor. E, a partir destes ideiais de santidade, espiritualidades que facilmente caem na deformação, na caricatura.

Santo é, nessa visão, aquele/a que faz o bem aos outros de forma palpável, na prática imediata da caridade,  que muitas vezes degenera em “caridadezinha” e não aquele/a que se preocupa com as estruturas e causas da pobreza; santo seria aquele/a que reza muito e passa o seu tempo nos bancos das igrejas, de “olhos fechados”, deixando o mundo à entrada da igreja; santo seria o/a que se preocupa mais com a alma do que com o corpo, aquele/a que vive já mais no “céu” que na “terra”; santo será finalmente aquele/a a quem se reza e se poderá pedir uma intervenção milagrosa… Nesta imagem/ ou nestas imagens , dificilmente se reconhece a figura de Óscar Romero.

Outra é a imagem de santo que nos é sugerida no texto de Isaías, na figura do SERVO DE JaHWeH.

É o santo, Servo Sofredor, que aceita carregar sobre si os sofrimentos do povo. Que se identifica que com este Povo, no meio do qual Deus o colocou como servo, como servidor da Sua Palavra, da sua justiça, da sua aliança. 

É o santo, Profeta-mártir, que se situa num determinado contexto histórico e no coração de um Povo (chame-se ele Israel ou El Salvador), para aí denunciar as injustiças cometidas pelos poderosos e defender a causa dos pobres e empobrecidos, dos injustiçados e maltratados.

É o santo, místico de olhos abertos, que na oração encontra a força que Deus lhe dá ou lhe promete…

Sem dúvida: as propostas plurais do Evangelho (que não são receitas nem respostas de catecismo) e a largueza do Reino de Deus tornam “elástica” a palavra “santo”:  pode abranger um largo espectro, figuras bem diferentes: de uma madre Teresa de Calcutá até um Oscar Romero, passando por um Paulo VI. Servos de JaHWeH do nosso tempo.

Se quiser, leia também a reflexão feita a partir do Evangelho deste domingo, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/10/16/nao-sera-assim-entre-vos/

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Entre a fé e a razão, a sabedoria…

A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo (14.10.2018), 28º domingo do tempo comum B: Sabedoria 7,7-11

Orei e foi-me dada a prudência;
implorei e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos
e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia
e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo.
Amei-a mais do que a saúde e a beleza
e decidi tê-la como luz,
porque o seu brilho jamais se extingue.
Com ela me vieram todos os bens
e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.

Aí pelo século III antes de Cristo, os judeus dispersos pelo império de Alexandre entraram numa situação difícil: o confronto com o helenismo levantava questões que se mantêm actuais até ao nosso tempo. Por que critérios o crente deve orientar a sua vida e as suas escolhas: pelos princípios da razão ou pelas orientações da fé? Que fazer quando uns e outros se contradizem? Ou seja, por onde escolher: Atenas ou Jerusalém?

Neste confronto de culturas, os crentes do judaísmo escolhiam entre duas atitudes: de um lado um fundamentalismo tipo macabeu (de rejeição da cultura grega, sem compromissos nem diferenciações),  atitude que se sentia “confirmada” por uma perseguição helenista arrogante no reinado dos ptolomeus; do outro, a assimilação ao helenismo de muitos judeus (com o risco real da perda da fé e da própria identidade). Mas, entre estes extremos, houve também uma resposta genial: a da sabedoria. Entre a fé “pura” (obedecer mesmo que absurdo) e a razão “pura” (seguir exclusivamente o lógico e o razoável),  apresenta-se a “sabedoria”, que se alimenta de uma e outra. Por ser dom de Deus, a sabedoria há-de conduzir o crente a encontrar os caminhos de Deus que são também os melhores para o crente. Entre o crente e o seu Deus há uma comunhão de interesses, que se traduzem em sabedoria. O que for melhor para o ser humano é o melhor para Deus. O que é bom aos olhos de Deus é mesmo o melhor para a vida e para a felicidade do ser humano.

Para os autores do livro da sabedoria, o último do “Primeiro Testamento”, a sabedoria estava  sem dúvida acima da “sofia” dos gregos, por vir de Deus, por ser duradoura, por ser fonte de todas as virtudes. Mas a sofia grega estaria incluída nesta sabedoria dos crentes que é sabedoria de Deus. É assim que o livro mostra “serenidade no confronto com as potencialidades do helenismo sem nunca as condenar. O seu autor e os leitores a quem se dirige pertencem a estas duas culturas” (H. Engel, Bibel und Kirche 4/1997, 163).

Sempre que invocamos o Espírito e imploramos os seus dons, pedimos o dom da sabedoria, juntamente com o da ciência e com o do entendimento. O Espírito de Deus dá tudo isso: sabedoria, ciência, discernimento, sede de verdade e capacidade para a procurar. A sabedoria e a razão não se excluem. Se neste ou naquele ponto entram em conflito, elas desafiam-se mutuamente na procura de resposta às questões humanas. O crente não “desliga” a razão no momento de crer.

Dois pontos a sublinhar a actualidade desta reflexão sobre a sabedoria:
1. As sociedades de hoje propõem aos jovens ciência e técnica num entusiasmo sem discernimento, e por isso ingénuo. O saber moderno, sobretudo o saber imediato transmitido por “google” e semelhantes não inclui as questões essenciais da vida. Não reflecte o „donde viemos, quem somos, para onde vamos“, não aborda a questão do sentido e do absurdo, evita o discurso sobre a morte… Ou seja não dá sabedoria, dá (apenas) conhecimento. Como falar de Deus e da fé sem negar os valores desse conhecimento técnico?
2. O concílio Vaticano II veio lembrar que há uma sabedoria inerente ao “senso comum dos fiéis”, que é de todos. Há uma sabedoria que Deus dá a todos os que nele acreditam. Há em cada crente uma competência para assumir a vida na sua complexidade, e, cada um por si, somos todos chamados a discernir, a avaliar, a escolher em liberdade. Era bom se os responsáveis da Igreja, a todos os níveis, escutassem esse senso de sabedoria, antes de se porem a falar…. Evitavam-se muitas situações de conflito e estaríamos mais preparados para entrar em diálogo com um mundo e uma sociedade que se afasta cada vez mais e cada vez menos entende a nossa linguagem “religiosa”.

Jn
11.10.2018

Se quiser, também pode ler a reflexão feita a partir do texto do evangelho deste domingo, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/10/10/o-que-nos-falta/

 

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„Não é bom que o homem esteja só!“

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (07.10.2018), 27º  domingo comum B:  Génesis 2,18-24

Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Então o Senhor Deus, depois de ter formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria, a fim de que todos os seres vivos fossem conhecidos pelo nome que o homem lhes desse. O homem chamou pelos seus nomes todos os animais domésticos, todas as aves do céu e todos os animais do campo. Mas não encontrou uma auxiliar semelhante a ele.

Então o Senhor Deus fez descer sobre o homem um sono profundo e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma costela, fazendo crescer a carne em seu lugar. Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem.
Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e a minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem».
Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne.

Na criação vista como processo, tão poeticamente traduzida nas imagens e palavras deste segundo relato da criação (Genesis 2-4, aliás bem mais antigo que o do primeiro capítulo do Génesis), o ser humano,  criado por Deus, desenvolveu-se descobrindo pouco a pouco as suas capacidades.  Descobriu a capacidade de dominar, “dando nome” às coisas e aos outros animais, tornando-se “senhor” pela palavra.  Descobriu a capacidade de amar, dando conta da sua solidão: não encontrou nada nem ninguém semelhante a ele, definindo-se assim um ser à procura, um insatisfeito , um ansioso. Descobriu a sua identidade na relação, quando „encontrou“ um TU, a quem podia reconhecer uma dignidade igual à sua, e na qual tinha aquilo que lhe faltava. Era um TU que vinha completar um “EU” (a „costela“ que me falta), mas um “Tu” que era um “outro”, um diferente.  “Esta é realmente osso dos meus ossos,  carne da minha carne!”

– Este é realmente o TU do meu EU  ! Agora sei que sou EU, porque descobri esse TU que eu procurava! – assim se podia exprimir (inspirando-se na conhecida filosofia de Martin Buber) a alegria desse “Adão” dos começos da humanidade!   E o TU na orígem, no „génesis“ de toda a relação foi-se alargando na procura humana da relação, em círculos cada vez mais largos,  para além da sexualidade e do binómio homem-mulher. O irmão, primeiro. O vizinho, a seguir. O „estranho“, depois.  E assim surgiu uma nova era da criação: o “mundo da relação” (Martin Buber), na qual continuamos a crescer, aos altos e baixos.

“Não é bom que o homem esteja só!”, são palavras colocadas na boca de Deus. Deus mesmo, o Criador, Aquele que conhece como ninguém as suas criaturas, sabe que ninguém pode ser feliz sozinho. Se alguém cai nessa tentação, de querer ser feliz sem os outros, gera vítimas à sua volta e torna-se ele mesmo vítima de desequilíbrios de graves consequências.  A solidão não assumida introduz processos regressivos – destrutivos – na bondade e beleza da criação.

Nestas últimas semanas, a Igreja católica alemã, bem como a Igreja em vários outros países, está a dar-se conta de que o celibato dos padres se tornou não só num “nicho” atraente para pedófilos, mas também que enquanto “celibato obrigatório” propicia a  criação de situações em que homens menos maduros e sexualmente inseguros, mesmo sem serem pedófilos, se tornam agentes de abuso de poder sobretudo nas relações com os menores com quem se encontram a nível profissional, mas também na relação com adultos a quem tratam como menores….   O celibato tem sido e continua a ser para muitos condenação à solidão. O estudo encomendado pela Igreja (conhecido pelo nome de MHG) revela que isso se sente sobretudo ao fim de 10 a 15 anos de vida de padre. A solidão, ao princípio assumida com generosidade,  torna-se muitas vezes insuportável e acarreta desequilíbrios psíquicos, frustração, descontrolo.

O arcipreste da cidade de Frankfurt, Johannes zu Eltz, veio a público defender aquilo que é urgente na Igreja: reflectir sobre as condições em que o celibato é vivido na Igreja e mudar o que for necessário. “O celibato é uma pérola. Sou totalmente a favor, quando ele é vivido por quem o vive por vocação. Mas só para esses. Para os outros, devíamos encontrar outras formas de vida” (Entrevista ao jornal televisivo “Hessenschau”, 23.09.2018)

Não é bom que o homem esteja só. Não é bom que a mulher esteja só. Não é bom que ninguém esteja só. Deus criou-nos para sermos seres que crescem pela relação, pelo amor, pela amizade, no respeito pelo TU que nos identifica.

Jn
03.10.2018

Se quiser, também pode ler a reflexão feita a partir do texto do evangelho para este domingo, disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/10/03/o-sonho-de-deus-e-as-nossas-leis/

 

 

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Quem dera!

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (30.09.2018), 26º do tempo comum B: Números 11,25-29

O Senhor desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele e fê-lo poisar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito poisou sobre eles, começaram a profetizar; mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no acampamento dois homens: um deles chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos, embora não tivessem comparecido na tenda; e começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: «Moisés, meu senhor, proíbe-os». Moisés, porém, respondeu-lhe: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»

Quem dera que os responsáveis da Igreja, educados e crescidos numa visão deformada de igreja (clericalismo), que os considerava “monopolistas” do Espírito, se convertessem a esta abertura de Moisés e finalmente reconhecessem que Deus há muito que infundiu o Seu Espírito, silenciosamente sobre toda a criatura e declaradamente sobre todos os baptizados!

Quem dera que cada cristão e cada cristã tomasse consciência da sua dignidade de filho/a de Deus e levasse a sério a competência profética que Deus lhe deu pelo Seu Espírito!  A competência de poder tomar a palavra, ou mesmo de dever fazê-lo quando necessário,  para intervir e participar como adulto na vida da Igreja e da sociedade!

Quem dera que a Igreja Católica, nestes tempos de crise e de procura de caminhos novos, confiasse inteiramente na presença do Espírito e não receasse um processo que a há-de levar a reflectir tudo sem tabús,  que a comprometa a tudo discernir, para poder deixar de vez aquilo que “passou” (por ex., o clericalismo hierárquico), mudar aquilo que urge mudar (como por ex., o celibato obrigatório dos padres), abrir-se à novidade (como, por ex, a ordenação das mulheres), renovar a partir do Evangelho e não a partir das tradições dos últimos séculos!  

Quem dera que todos tivéssemos um olhar aberto e atento para a actuação do Espírito à nossa volta e no mundo, para além das fronteiras definidas das nossas instituições, Ele que sopra onde quer e como quer, e actua de forma inesperada e criativa!

Quem dera que, nas nossas Igrejas, tão preocupadas com os seus dogmas e tradições, com a afirmação da própria identidade confessional e diferença, soprasse o vento renovador do Espírito de Deus, que abre janelas e portas, e valoriza a liberdade daquele que o acolhe!

Quem dera que perdêssemos o medo de invocar o Espírito de Deus para os nossos corações, certos de que Ele “habita no nosso coração e respeita completamente a nossa personalidade” (Y. Congar). Mais o Espírito de Deus habita em nós, melhor poder ser nós mesmos!

Quem dera! 

Jn

28.09.2018

Se quiser, também pode ler a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo (26º comum B), aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/09/25/as-pessoas-de-boa-vontade/

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„Armemos ciladas“ ao Papa

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (23.09.2018), XXV domingo comum B: Sabedoria 2,12.17-20

Disseram os ímpios: «Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação.
Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte.
Porque, se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários.
Provemo-lo com ultrajes e torturas para conhecermos a sua mansidão
e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame,
porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo.

Ao ler este texto do Livro da Sabedoria que a liturgia propõe para este domingo, “choquei-me” com a proximidade no conteúdo com outro texto que estes dias tive ocasião de ler: a crónica de Frei Bento Domingues num conhecido jornal português, intitulada “O Papa não está só!” (1).
Frei Bento denuncia as “manhas” e cálculos dos adversários de Francisco, no sentido de o desacreditarem e boicotarem as reformas da Igreja a que ele se propôs.
Também no Livro da Sabedoria se fala desses manhosos que “armam ciladas ao justo”, porque o justo incomoda. Os “ímpios” (Livro da Sabedoria) e as “oposições organizadas” (Bento Domingues) juntam-se no caminho da difamação e de calculadas provações e provocações, só para tentar apanhar em falso aquele que segue e se faz mensageiro da verdade, da transparência, da simplicidade e da abertura. Argumentam mesmo com uma certa “teologia”: “Se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários”.
Também argumentavam assim os carrascos da Inquisição.

O momento que atravessamos na Igreja parece-me mesmo muito sério. As reformas do Papa Francisco, num esforço de aplicação da Gaudium et Spes (documento do Concílio Vaticano II que fala de uma Igreja que aceita perder o poder, para se colocar ao serviço da humanidade), estão longe de ter alcançado os seus objectivos. E o cerco à sua volta está cada vez mais cerrado. É impressionante que os “manhosos” cerquem o Papa e se manifestem até no círculo  daqueles que juraram fidelidade ao Papa, os cardeais. “Armadilhas” e conspiração de onde menos se devia esperar.

O Livro da Sabedoria não nos garante que o “justo” vai aguentar e sobreviver às ciladas que os ímpios lhe preparam. A experiência da história não nos deixa a serenidade de pensar que o Papa vai sobreviver a este cerco conspirativo que a Cúria lhe está a fazer. E não só a Cúria: com ela estão muitos movimentos ditos de espiritualidade, pietistas, fatimistas, conservadores agressivos de todo o tipo; com ela estão muitos clericalistas a todos os níveis da pirâmide eclesiástica, leigos inclusive…

“O Papa não está só!”, escreve Frei Bento. Também o creio. Mas será que as forças que estão do lado do Papa conseguem impedir o pior?!

Jn

(1) Frei Bento Domingues, Crónica do “Público” de 16.09.2018

Se quiser, leia também a reflexao feita a partir do texto do evangelho deste domingo, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/09/18/que-discutieis-pelo-caminho/

 

 

 

 

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Servos de JaHWeH

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 16.09., 24º domingo comum B: Isaías 50,5-9a: 

O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo?Compareçamos juntos.
Quem é o meu adversário? Que se apresente!
O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?

O profeta de quem fala este texto é um anónimo: temos a sua mensagem mas não sabemos nada de quem a escreveu. Como se já para o seu autor só a sua mensagem contasse. Perseguido, maltratado, excluído – tudo suporta por causa da Palavra que anuncia, que não é Palavra sua, mas do “Senhor Deus” que lha colocou nos ouvidos.

Creio que é uma experiência preciosa esta do chamado “Servo de JaHWeH” do “Deutero-Isaías”: tendo tido a preocupação de não se identificar, as suas palavras e a sua experiência estão aí na Bíblia, oferecendo-se como chave de interpretação de vidas-mártires, de profetas sofredores, de inocentes perseguidos, de torturados e excluídos, de “servos de JaHWeH” de todos os tempos e lugares (servos da verdade, da justiça, da fraternidade que este Deus propõe à humanidade).

A comunidade cristã da primeira geração viu neste profeta sofredor uma “chave” para entender o sofrimento de Jesus, o profeta desprezado na sua terra e o inocente condenado à morte na Cruz. A dedicação à Palavra, o sofrimento inocente e a confiança inabalável em Deus são traços comuns às duas figuras.
Mas, para além de Jesus, e com Jesus,  há que utilizar esta chave para entender figuras da história como Jan Hus, condenando à fogueira, ou Teillard de Chardin, condenado ao silêncio, ou Oscar Romero, liquidado junto do altar, ou… ou… ou Papa Francisco, cercado pelas forças conservadoras e restauracionistas dentro da Igreja pôs-conciliar…
A história está cheia de “servos de JaHWeH”. Há que reconhecê-los. Nem que seja a posteriori. Mas melhor seria reconhecê-los em vida, para poder colocar-se do seu lado e dar-lhe ouvidos.

Jn

Se quiser, pode ler também a refexão feita a partir do evangelho deste domingo aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/09/12/saber-e-crer/

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Tende coragem !

A propósito do texto escolhido para primeira leitura deste domingo, 09.09.2018, 23º domingo do tempo comum B:  Isaías 35,4-7a

Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos» Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.

De Isaías temos dos mais lindos sonhos e visões que a Bíblia nos oferece. Sonhos e visões que nos voltam para um futuro fascinante e nos faz ter saudades dele.

O texto desta leitura parece ser mais do tempo do Deutero-Isaías que de Isaías mesmo. Este Deutero-Isaías situa-se no exílio de Babilónia e fala para um povo de exilados desanimados, deprimidos, apáticos, que parecem não acreditar mais na mudança. É a eles que este texto se dirige: “Tende coragem, não temais!… Deus, ele próprio, vem salvar-nos!”

A salvação consiste nisto mesmo: os olhos dos cegos vão abrir-se, os ouvidos dos surdos vão ficar limpos e desimpedidos, o coxo saltará, o mudo cantará… Deus vem levantar a moral do seu povo, prepará-lo para um novo recomeço.

Na Igreja de hoje, e nestes dias, um homem fala de mudança e de renovação, e não sabemos quantos o levam a sério: Francisco, Bispo de Roma (papa), quer reanimar uma Igreja deprimida e desanimada. As notícias sobre abusos sexuais dos padres e outros responsáveis desta instituição que se tinha pela mais elevada instância moral não param e são deprimentes ao extremo. Hoje num país, amanhã  noutro, os relatórios repetem-se.

Como avançar? Por onde recomeçar? 

Sem dúvida, a confiança em Deus é fundamental, ponto de partida e de chegada: “Ele mesmo vem salvar-nos”. Depois, a participação activa de todos: os que se têm por cegos ou como tal se comporta(ra)m vão ter de abrir os olhos para ver o que se passa à sua volta e encarar a realidade como ela é, sem mistificações; os que se isolaram no seu mundo e dizem de nada ter sabido ou nada ter ouvido, vão abrir os seus ouvidos para escutar o que Deus quer de nós nestes tempos “secularizados” e indiferentes à fé; os mudos vão falar, fazer uso do seu direito à palavra e levar sério o dever de intervir, já que têm voz e têm vez… Quer dizer, todo o Povo de Deus, e, nele, cada um dos seus membros, é chamado a participar activamente. 

Como diz o Papa na sua Carta ao Povo de Deus de 20.08.2018: “É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação activa de todos os membros do Povo de Deus”. 

Com a participação de todos e muita coragem de mudar – mudar o que for necessário, mesmo que sejam tradições “sacralizadas” como é o caso do celibato obrigatório para os presbíteros que catalisa tantas perturbações ao nível da sexualidade – o “deserto” transformar-se-á em “terra regadia”, a Igreja voltará a ser aquilo que Deus e o mundo esperam dela –  anunciadora da boa nova do amor de Deus -, as pessoas hão-de recuperar a confiança nela.

Francisco, o Bispo de Roma, parece cada vez mais cercado por aqueles que se sentem incomodados com as suas palavras de mudança e que gostariam de o silenciar. Será que vai aguentar?, perguntam-se muitos. Apetece repetir ainda as palavras do profeta na fase final do exílio de Babilónia: “Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais.

Aí está o vosso Deus…  Ele próprio vem salvar-nos».

Jn
04.09.2018

Se quiser, leia também a reflexão feita a partir do texto do evangelho deste domingo, disponível nos arquivos deste blog: 

https://jamnunes.wordpress.com/2015/09/04/abre-te/

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