Que sentido tem o sofrimento?

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(Bild: Museum-nuernberger-kunst)

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo: Job 38,1.8-11. Leia antes o texto bíblico.

Este pequeno texto de Job insere-se numa preciosa reflexão teológica sobre a existência humana, na procura de resposta ou de sentido para aquilo que a marca ou ameaça. No livro de Job, a figura de Job coloca a Deus perguntas consistentes sobre a sua sorte, o seu sofrimento sem razão,  a sua incompreensão para com a atitude de aparente “indiferença” de Deus perante o sofrimento do inocente (veja o cap. 3). Para o crente de todos os tempos, de Abraão sobre o monte Moriah aos crentes em Auschwitz, “o silêncio divino é o último sofrimento” (comentário TOB). Mas em Job Deus responde. Não responde directamente: desafia-o a uma nova reflexão, não tanto sobre os enigmas da existência mas sobre a relação entre a fé e a razão. “Lembrando-lhe” a diferença entre criador e criatura, a resposta de Deus é que a inteligência humana tem limites, tal como tudo o que é finito. “Fui eu quem criou, sou quem mantenho… ou és tu?”, responde Deus na parte final do livro (a partir do cap. 38). A criatura pode não compreender tudo o que acontece na sua vida e no mundo, mas o Criador, sim, tudo conhece e acompanha.  Quando compreender é complicado ou mesmo impossível, a melhor atitude do crente é confiar.

Diferentemente dos amigos de Job, que criticam a atitude do sofredor a partir das suas teses de teodiceia, Deus não confirma a suposição de que todo o sofrimento tem por detrás um pecado que o justificaria. Ao apresentar-se para responder, nesta disputa entre a razão e a fé, Deus aceita o desafio que o Ser humano lhe coloca. Questionar-se, tentar compreender, não pode ser visto como falta de fé. O Deus Vivo – criador e amigo – continua a não revelar-se inteiramente, nem dá ao ser humano respostas imediatas. A sua relação inabalável de amizade com cada criatura humana é antes um desafio à fé-confiança. “Sem te ver, nós te amamos!” (fr. Roger)

”A questão do sentido universal é uma pergunta que não se pode evitar nem se consegue realmente responder, nem a partir do pensamento humano nem a partir da realidade histórica. A história real acontece lá onde o pleno-sentido e o absurdo se encontram lado a lado, convivem  e se misturam; lá onde há alegria e sofrimento, riso e choro: portanto na finitude” (E. Schillebeeckx, 1954)

Jn
19.06.2018

 

 

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Deus „não dorme“

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 11º do tempo comum B: Ezequiel 17,22-24. Leia antes o texto bíblico.
Fazer história exige uma determinada distância em relação aos acontecimentos do tempo que se estuda ou se relata. Em pleno curso, é difícil avaliar a importância do que se vive, calcular a marca que os acontecimentos vão deixar, fazer o balanço e tirar as consequências que eles vão ter… Só o tempo passado se pode analisar, só nessa relativa distância do tempo se pode ver realmente o que aconteceu.
Um exemplo: que está a acontecer com o mundo nestes dias que decorrem, com um presidente americano que se isola e quebra todos os compromissos do seu país no que diz respeito a temas tão importantes como o clima? É difícil saber. O que está acontecer realmente só no futuro se pode “ver”.

Algo semelhante deve ter sentido o profeta Ezequiel, um profeta que esteve mergulhado em cheio nas convulsões por que passou o reino de Judá. Ele esteve na primeira leva de deportados para Babilónia. Ele assistiu à confusão que reinava em Jerusalém, com um rei deposto, outro que foi ali “posto” e prometeu fidelidade à Assíria mas, por detrás, procurou a protecção dos faraós do Egipto. A consequência foi uma segunda invasão de Israel por parte dos babilónios, com feitos bem mais  devastadores. Que haveria Ezequiel de anunciar no meio de tudo isto? Que palavra profética haveria ele de proclamar?

Ezequiel serve-se, como tantas vezes o fazem os profetas, de uma alegoria ou parábola para interpretar o presente – com toda a sua face deprimente, devido à infidelidade para com Deus ou confiança nas alianças políticas – e anunciar um futuro que conte com a fidelidade de Deus.

A parábola do capítulo 17 podia contar-se mais ou menos assim. Era um reino onde reinava o cedro. Uma águia tenta destrui-lo, cortando-lhe o cume. E, em lugar do cedro, coloca uma vinha. Uma outra águia vem e a vinha pede ajuda a esta nova águia. A primeira águia vem e corta a videira.  Uma luta de águias, uma luta de poderosos e, no meio delas, um povo – Israel – que ora se compara a um cedro altivo, ora a uma videira cujas uvas outros vêm colher. Assim Ezequiel, o sacerdote/profeta, deportado entre os deportados, interpreta a história de Judá.
Mas interpretar é pouco. Um profeta tem de voltar-se para o futuro, tem de anunciar a esperança. E a esperança é que Deus virá e do velho cedro de Israel tomará um rebento novo, irá replantá-lo sobre o monte Sião, e um novo tempo começa. Sem ninguém saber bem como – a linguagem enigmática do profeta também não o diz –  Deus não deixará de actuar para salvar o seu povo, para o fazer sair deste impasse.

Bom seria que os cristãos de hoje, como Ezequiel, aprendessem a estar atentos aos sinais dos tempos, para os saber ler e interpretar  e logo anunciar a confiança profunda de quem acredita que “Deus não dorme”, que Deus não falta à sua promessa, que Deus não desistirá de conduzir a humanidade para tempos de paz e de justiça, de respeito pela criação e pela vida.

Jn
12.06.2018

 

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10 de Junho. Dia de Portugal

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Canto este pais elegante entre Castela e o mar
terra de gente que veio e quis ficar
Porto de fenícios gregos e romanos
Tenda de celtas iberos e visigodos
Templo de judeus cristãos e muçulmanos

Canto este país pequeno com vontade de se ir
Mala aviada sempre pronta pra partir
A desbravar esse mar que não tem fundo
Ou novos Brasil pra onde possa emigrar
pais pequeno com grandes sonhos de mundo

Canto este país pra além de todo o fado
Pra além de fátima e do futebol apregoado
Canto os inúmeros poetas sem nome e sem dinheiro
que dia a dia fazem deste pequeno país
poema de um sonho acordado e verdadeiro !

Jn 10.06.2018
Dia de Portugal

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Tipicamente humano!

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A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 10º domingo do comum B: Génesis 3,9-15

Onde estás? – pergunta Deus ao ser humano. Este tinha-se escondido de Deus porque não acreditou nem confiou na sua palavra. Um ser humano que desconfia da restrição que Deus lhe faz, deixando-se levar pela suposição de que o ser humano podia ser igual a Deus…  Ao desconfiar, volta as costas à amizade de Deus. E Deus vem à sua procura.

A partir daí começa toda uma história que  vai de página em página da Bíblia: a história da amizade de Deus com a humanidade. E a versão bíblica é clara: a iniciativa parte de Deus. Perante as falhas e infidelidades do povo, Deus não desiste. Perante os fracassos e catástrofes da história, Deus propõe, uma e outra vez, um novo recomeço.

A resposta do ser humano, naqueles começos da humanidade, é paradigmática: culpados são os outros. Culpada é a mulher. Culpada é a serpente. Culpado é o fruto proibido. Reconhecimento da própria fragilidade? Da fraqueza? – nada ! “Tipicamente” humano!

Um ser humano que quer ser igual a Deus, porque afinal não conhece nem reconhece a própria fragilidade, a finitude, a limitação e a fraqueza. Se a reconhecesse, estaria desde o princípio interessado na amizade “protectora” de Deus. Assim foi desde o princípio. Assim continua a ser.

Jn
06.06.2018

 

 

 

 

 

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Um descanso libertador

shabat-shalomA propósito do texto proposto como 1.a leitura para este domingo, IX do tempo comum B: Deuteronómio 5,12-15

 

De Jesus – ou pelo menos, a ele atribuída – nos chegou esta palavra que todos conhecem e utilizam para afirmar o justo direito à liberdade acima de todas as leis e rubricas: “o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado”.

De facto, parece que no tempo de Jesus, a lei do sábado já tinha perdido o perfil libertador que o livro do Deuteronómio lhe atribui, aprofundando o terceiro mandamento do decálogo. Em Êxodo 20, o preceito do sábado fundamenta-se no descanso divino do sétimo dia da criação. Aqui, no livro do Deuteronómio, escrito após a experiência do exílio na Babilónia, a fundamentação do descanso em dia de sábado vai mais longe. O sábado é libertação, como o foi a saída do Egipto. O sábado é “sacramento” da liberdade que Deus ofereceu ao seu povo. Estava por detrás desta interpretação a experiência negativa em Babilónia, onde todos os dias eram dias de „trabalho“ escravizante?

Para além da sua nova fundamentação, impressiona o alcance deuteronómico do preceito do sábado. A lei do descanso sabático tem de valer para todos: para os da família como para os escravos; para as pessoas como para os animais; para os do povo,  como para para os estrangeiros.  O descanso que Deus cumpriu na “genesis” do mundo torna-se uma aquisição preciosa a não perder e sobretudo a não violar quando se trata dos outros, dos empregados, dos dependentes, e também dos animais de trabalho (!). A necessidade e o direito a este descanso vale para si mesmo e para os outros. Tem uma importância que Deus tornou sagrada, quer dizer, „inviolável“!

Que as melhores instituições – como esta do descanso semanal –  se podem corromper, já Jesus o observou e a história depois dele não deixou de demonstrar com exemplos. Mas o seu valor original continua intacto. Nas nossas sociedades de consumo em que o domingo (para os cristãos, equivalente ao sábado judaico) é cada vez mais um dia para passar pelo supermercado ou para fazer horas extraordinárias especialmente bem pagas em serviços que nem sempre são serviço ao ser humano (como hospitais ou bombeiros) mas serviço aos interesses económicos e financeiros, faz bem ler e reler um texto destes. Os sindicatos não exprimem nem justificam melhor este direito sagrado ao descanso, a lembrar que não somos “animais de trabalho” mas co-criadores de Deus. E Ele descansou no sétimo dia!

Jn
29.05.2018

 

 

 

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Santíssima Trindade

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Santíssima Trindade
Comunhão indivisível da unidade e da diversidade
União sem fusão da identidade e da diferença
Presença na proximidade e na distância

Santíssima Trindade
Deus Criador do sonho antes do tempo
Deus Logos contemporâneo da existência
Deus Espírito futuro em gestação

Santíssima Trindade
Deus sobre mim telhado de protecção
Deus comigo companheiro de viagem
Deus em mim fogo do amor e bússola da poesia

Trindade
Deus acessível
Comunhão

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Que Deus?

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, festa da Santíssima Trindade: Deut 4,32-34.39-40

“Que povo escutou como tu a voz de Deus a falar do meio do fogo e continuou a viver?” .  Nesta pergunta retórica que o Livro do Deuteronómio coloca na boca de Moisés, há uma referência clara à experiência do próprio Moisés no encontro com Deus junto da Sarça ardente”  (ver Ex 3 …).
Aí Deus revela-se a Moisés como um Deus preocupado com a sorte do seu povo, Deus atento, Deus próximo:  Ele vê, ouve, conhece a situação do povo e mostra-se decidido a intervir para o salvar.
Assim sendo, a pergunta podia ser formulada nestes termos: que outro Povo fez esta experiência de Deus Vivo e próximo, experiência de um Deus libertador?

Esta tarde, num encontro de catequese, uma criança de 9 anos referia no grupo que um colega e amigo seu da escola não acredita em Deus, porque (sic) “tem uma imagem de Deus como os antigos, um Deus que mete medo às pessoas”.
A imagem de Deus é decisiva: conduz a Ele ou afasta; desperta fé e relação ou  medo e distância… De que Deus falamos quando falamos de Deus? Que imagem passamos dEle?

De Israel herdámos esta imagem de Deus Libertador e amigo da humanidade. Que fizemos dela?!  Já Jesus dedicou uma boa parte da sua pregação a “recuperar” a imagem de Deus. O culto fechara-o no Templo. Os moralistas tinham-no a reduzido ao Deus da lei. Jesus tentou recuperar o Deus-amigo. O Deus próximo. O Deus da vida. Essa tarefa continua a ser tarefa em tempos de pos-cristandade.

Jn

 

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