Mértola

O sol queima as pedras que os romanos talharam
e o calor entra a pique nas casas mouras
outrora de paredes frescas sem janelas
hoje postas a descoberto
por arqueólogos curiosos e persistentes

o casario branco disputa um lugar seguro
entre muralhas que protegem
do Guadiana ou de presumíveis invasores
resguardando a memória dos cavaleiros
de Santiago da cruz em forma de espada

e na Igreja voltada a Meca o silêncio
reza orações de paz e tolerância suspiro
desses crentes que colocaram os alicerces da história
aqui onde paleo-cristãos desceram aos baptistérios
e muçulmanos lavaram as mãos à entrada da mesquita

E o verão de sol céu azul e secura
cumula e tranquiliza o espaço e o tempo
o mais que passado, o passado e o presente
de uma calma (calor do Alentejo) e de poesia…
Mértola: cidade que vai acordar um dia !

Julho 2017

 

 

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Fé e tolerância

A propósito do texto do livro a sabedoria, proposto como primeira leitura para este domingo 23.07.2017, 16º doming comum A: Sab 12,13.16-19

No primeiro século antes de Cristo, isto é, pouco antes da entrada na história do profeta Jesus de Nazaré, o livro da sabedoria é  um bom testemunho de uma teologia que procura tornar acessível às pessoas de cultura helenista a fé de Israel, os seus valores, a sua imagem de Deus e do mundo.

O texto que foi escolhido como primeira leitura deste domingo é uma reflexão simples mas profunda sobre a imagem de Deus que Israel foi “descobrindo” na sua caminhada de séculos. JaHVeH é um “Deus clemente e compassivo, lento para a ira, rico de misericórdia”: esta afirmação do Livro do Êxodo (34,6) foi-se concretizando e confirmando nas diferentes fases da relação de Israel com o seu Deus. JaHVeH podia castigar o seu povo de forma bem dura, mas não o fez; preferiu as leis da misericórdia.  Ele podia mostrar o seu poder, a Sua „força“, aos povos estrangeiros, de forma a impor-se de uma vez para sempre, mas não o fez;  preferiu o método da „bondade“.
Assim JaHVeH não só se revelou um Deus diferente, sem nada de antropomórfico como o era o caso dos deuses da mitologia grega, como também ensinou o seu povo a ser diferente: „O justo deve ser humano“.

O justo aos olhos de Deus, isto é, o verdadeiro crente, tem de ser humano, cada vez mais humano. Se deixar de ser humano na forma de viver a sua religião ou na maneira de a defender e propor (impor) aos outros, deixa de ser justo aos olhos de Deus.   Quanto mais crente, mais humano. Quanto mais humano, mais justo, mais próximo de Deus.

Jesus não pregou outra coisa: esta fé-confiança, que temos como caminho para Deus, tem também de nos aproximar e levar ao encontro dos outros. Não podemos passar pela vítima caída a beira do caminho como se a não víssemos, desculpando-se de ter de participar na liturgia do templo.
Não vale a pena tentar convencer outros da superioridade dos dogmas e valores morais da nossa religião, se o fazemos de uma forma que não é respeitadora da dignidade humana.  E a liberdade religiosa – a de optar livremente pela sua religião, ou a de não ter nenhuma – é dignidade humana.

Um Deus paciente, clemente, bondoso, humilde… É deste Deus que os judeus do tempo do livro da sabedoria eram convidados a dar testemunho no meio dos povos de cultura helenista. É deste Deus, e a seu jeito – com paciência, tolerãncia, respeito pelo diferente e pela digndade de todos –,  que temos hoje de dar testemunho num mundo que parece viver, e viver bem!, como se Deus não existisse, ou então perante o fanatismo religioso que para aí está, permitindo-se fazer tudo em nome de Deus (Que Deus é esse, apetece peguntar?).  20 séculos depois de Cristo, continua a valer aquilo que o livro da sabedoria reflectia no sec. I aC.: o crente em Deus tem de ser (antes de mais) humano…

Se quiser, pode ler também a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/07/18/fazer-da-vida-uma-parabola/

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A Palavra

A propósito do texto proposto como primeira leitura deste domingo, 16.07.2017, 15º domingo comum A: Isaías 55,10-11

A arma do poeta e a força do profeta é a palavra. Que seria do profeta se não acreditasse na força e na eficiência da sua palavra? Se não acreditasse que a sua palavra é semente e é fermento, ou, para usar as palavras de Isaías, é chuva ao encontro das raízes, é água fresca ao encontro da nossa sede?  O profeta acredita que o próprio Deus é garante da eficiência da Palvra que ele profere, porque ele se colocou ao serviço de Deus, dando as suas palavras humanas à Palavra de Deus.

JaHVeH, o Deus de Israel e dos cristãos, revela-se como um Deus que recusa ser o deus das trovoadas e tempestades, dos dilúvios e dos incêndios, que renuncia mesmo à eficiência imediata da sua palavra – „Deus disse e assim aconteceu“ – para ser o Deus da Palavra que é dirigida ao ser humano como convite – esse convite que Ele dirigiu a Abraão e continuou a ser dirigido a profetas e peregrinos, como o fez Jesus de Nazaré  e continua a ser dirigido hoje… „A palavra de Deus foi dirigida a João no deserto“… a cada um de nós hoje nos desertos do mundo.

Deus da Palavra, não da força. Deus em diálogo permanente com o ser humano, correndo o risco de que as suas palavras caiam em ouvidos moucos, ou dêem com um clima de „indiferença“, de aparente ou real secularização…  Deus aposta que a Sua Palavra não voltará a Ele sem produzir os seus efeitos. Anda pelo mundo a trabalhar „silenciosamente“, discretamente. Será poema e profecia. Será declaração de amor. Será palavra de Misericordia. E não deixará de produzir o seu efeito.

 

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A humildade que desarma

A propósito do texto de Zacarias (Zac 9,9-10), proposto como primeira leitura para este XIV domingo comum A:

Humilhado a frequente pelas grandes potências da região, não admira que Israel tenha construído e alimentado ao  longo dos séculos o sonho de um rei glorioso, detentor de um poder inegável e reconhecido por todos os povos vizinhos.  Como pano de fundo havia a imagem de David ou mesmo de Salomão. Um outro David – o „filho de David“ – viria, e a sua cidade, Jerusalém voltaria a brilhar. Sonhos de grandeza… que nunca passariam a realidade, a não ser aos olhos da fé.

Profetas, como Zacarias, foram tentando corrigir este sonho. Eram os tempos de grandes imperadores, como Alexandre Magno, que dominou sobre todo o mundo conhecido de então (Sec IV – III aC). Mas visto em contexto histórico, o texto entende-se melhor. O rei de Israel será um rei diferente : „virá montado num jumentinho“, e não num cavalo de raça. O jumento era o „cavalo“ dos pobres.  O „segundo“ Isaías fala do „enviado“ como um servo sofredor, sem as glórias das vitórias…

Importante, para o profeta, não são as glórias e as grandezas do „rei“ que aí vem, mas sim que ele, sem confiar nas armas, ou mesmo destruindo-as (!), virá trazer a paz a Israel e, depois de Israel, de povo em povo até aos confins da terra. Um rei humilde ?! Um poder sem armas?!

Esta visão alternativa do poder não „pegou“. O próprio Jesus teve dificuldades em passá-la aos seus discípulos. Na Igreja, ao longo dos séculos, valiam acima de tudo as honras e as glórias, a carreira e a procura de poder hierárquico. „Igreja serva e pobre“, ao jeito de Jesus?! Foi um sonho que não morreu. Passou… de Jesus de Nazaré a Francisco de Assis; de S. Vicente de Paula a Charles de Foucauld… a D. Hélder, a João XXIII… e aí está chegado a Francisco, o Bispo de Roma.

Nos tempos que correm, a nível geopolítico, voltamos aos nacionalismos, às afirmações de poder, à subida ao trono de „homens fortes“…
A Igreja, os cristãos, e, que bom seria se pudéssemos mesmo dizer, as religiões!, descobriram que não é na força das armas que está a salvação, mas no Deus humilde e pobre. Ele convida-nos a viver esta humildade que desarma: nas relações do dia-a-dia como nas relações internacionais.

Jn
05.07.20117

Se quiser também pode ler a reflexão sobre o texto do evangelho do domingo, já aqui disponível neste blog em: https://jamnunes.wordpress.com/2014/07/06/que-alivio/

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29 de Junho: dia mundial do abraço

Abraço?!
Juntar-se e apertar-se
com os braços
que envolvem sem estrangular
apertam sem magoar
dão-se a sentir sem impor

O „amplexar“ do latim deu em abraçar
sem „complexar“
sem compexos nem de domínio ou superioridade
nem de subjugação em inferioridade
mas de iguais e de irmãos na dignidade

Vamos aprender a abraçar
neste envolver que nos quer dar
a certeza de não estar

neste mundo !

Jn
29.06.2017

PS: parece que há diferenças na data do dia do abraço.
Na Alemanha, é hoje, noutros países celebra-se a 22.05.
Vivo aqui,  sigo o calendário daqui…

 

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A hospitalidade que fecunda

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A propósito do texto proposto como 1ª leitura deste domingo, XIII Comum A: 1 Reis 4,8-11-14-16.

Nos povos do médio oriente, a hospitalidade é um valor social altamente cotado. Acolher é um dever. As viagens a pé, e, de modo especial, as travessias do deserto, colocavam facilmente o viajante e o caminhante em situações de carência: ser acolhido nas aldeias ou simplesmente numa tenda de beduínos ou pastores era a única maneira de poder sobreviver à dureza da caminhada. Acolher, não só um amigo ou um conhecido, mas a todos: acolher quem chega, quem passa, o que fala a mesma língua tal como o estranho e o peregrino. Por detrás desta ética cultural, há muito mais que um sentido pragmático  (eu acolho hoje, para poder ser acolhido amanhã ).  Acolher é uma espiritualidade. Há uma espiritualidade do acolhimento: ao acolher, acolho o próprio Deus, que protege o peregrino com a Sua lei, se é que não é Ele mesmo o peregrino que bate à minha porta. É sobretudo nesta perspectiva que a hospitalidade é apresentada nos textos bíblicos: dos mais antigos (ver o acolhimento que Abraão faz aos peregrinos em Gen 18) até aos mais recentes (Jesus em casa de Marta e Maria, ou a palavra de Jesus proposta como evangelho deste 13º domingo comum: “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40).

A leitura do segundo livro dos reis é uma bela história de acolhimento. A sunamita, senhora de condição, dá provas de um grande sentido de hospitalidade. Começa por convidar o profeta para comer em sua casa e acaba por lhe mandar construir um quarto na sua casa, onde ele pode ficar sempre, quando passar nas suas andanças de profeta.  A abertura para acolher não é, como sabemos, um efeito “normal” da riqueza. A maioria dos ricos parece fechar-se no medo de expor e de perder as suas riquezas. Esta senhora do livro dos Reis, na sua situação de bem-estar, não hesita em acolher, sabendo utilizar a riqueza que tem.

Se a espiritualidade do acolhimento nos diz que ao acolher o pobre acolhemos o próprio Deus, ela também nos garante que o próprio Deus não deixa a hospitalidade sem recompensa. A senhora recebe como “prenda” aquilo que ela, com o seu marido, não conseguia ter e que tanto terá desejado: um filho.  Tal como Sara (Gen 18,12-15), também ela nem quer acreditar:  o acolhimento fecunda quem acolhe e enriquece quem é acolhido.

Na Europa de hoje, o tema do acolhimento é de uma enorme actualidade. Centenas de milhar de pessoas procuram acolhimento na Europa da riqueza, da segurança e do bem-estar.  Atravessam mares e continentes na expectativa de receber asilo.

O tema, nas suas diversas perspectivas, tem uma complexidade que nos inibe de dogmatizar soluções. Uma ideologia do acolhimento corre o risco de ignorar questões sérias. Mas as dificuldades em encontrar soluções-receita não podem impedir-nos de continuar a procurar praticar a espiritualidade do acolhimento: essa de ver em cada ser humano um peregrino de Deus… Na leitura das entrelinhas do livro dos Reis, parece adivinhar-se uma estratégia: começar por convidar para uma comida partilhada; escutar com atenção a sua história;  tentar aperceber-se das suas carências. Necessita de acolhimento imediato?!  – Vamos acolhê-lo como a sunamita acolheu Eliseu. Depois, ele seguirá o seu caminho. E no espaço que criarmos em nós e nas nossas sociedades para o acolhermos, ficará a abundância  da bênção de Deus.

28.06.2017

„A porta está aberta, mais ainda o coração“
(adágio da espiritualidade cisterciense)

 

 

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La Gioconda, Louvre

mona_lisa_louvre20172.jpg

Passou o controle de segurança
adquiriu bilhete a preço considerável
subiu escadas
percorreu a passos acelerados o „salon carré“
e aí está
uma multidão admirável
diante dessa mulher de enigmático sorriso

olhares de frente e de trás
fotografias de todos os tamanhos
selfies prontas a navegar
e imagens de recordar
da Vinci

Condenada à solidão de toda uma parede
desproporcionada
alheia num malicioso sorriso
perpassado de enigma e de ironia
a „mona Lisa“ – La Gioconda – parece perguntar
à massa-multidão que não pára de correr
se era esta a beleza que ela queria

Jn
17 06 2017

 

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