O perdão

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A propósito do texto de Ben Sirá, proposto como primeira leitura para este domingo, 24º domingo comum A: Sir 27,30 – 28,7
Antes de ler esta reflexão, leia o texto bíblico !

O perdão encontra sempre uma ponte
para atravessar o abismo que separa as pessoas

O perdão liberta e alarga o coração de quem perdoa
e levanta quem é perdoado para que possa continuar caminho

Não há pecado que Deus não perdoe
mas o perdão de Deus tem que ser pedido em oração humilde

Só quem realmente perdoa
pode rezar até ao fim a oração do Pai Nosso

Perdoa e serás perdoado:
é na prática do perdão que nos mostramos mais humanos e mais parecidos com Deus

O perdão é uma pérola preciosa que Deus colocou no coração:
ao perdoar, abrimos e vemos o tesouro que temos dentro de nós!

É melhor perdoar
do que viver a vida toda na tristeza de não o ter feito (cf 2 Cor 2,7)

A humildade sabe pedir perdão e perdoar.
A arrogância não desculpa nem compreende

A arrogância atira a primeira pedra;
a autenticidade coloca-nos diante do espelho

“Quem se vinga incorrerá no castigo de Jahveh:
Ele avaliará com severidade os seus pecados” (Sir 28, 1)

Quando não pudermos perdoar directamente a quem nos faz mal
rezemos como Jesus: “Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem!” (Lc 23,34)

„Quantas vezes devo perdoar?! Irei até sete vezes?“ – perguntamos.
„Não te digo até sete vezes,  mas até setenta vezes sete“ – responde Jesus (Mt 18,21-22)

Jn
13.09.2017

 

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Outono

 

Outono_jn_2017

Na folha que cai da árvore dançando
lentamente
ao ritmo do verão que se despede
dominam as cores da saudade

No adeus forçado ou aceite
docemente
na tristeza sempre adiada da partida
correm lágrimas em seco

Na menina-dos-olhos
transparente
de luz inundada frágil brilhante
se destilam já as cores do arco-iris

É Deus que parece dizer
compadecente
não mais haverá dilúvio
nem de lágrimas nem de outono

No outono de tudo
acreditando que o tempo
é uma quimera
vale sempre a pena esperar a primavera!

Jn
Setembro 2017

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Como uma sentinela

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo 23º domingo comum A: Ezequiel 33,7-9. Leia antes o texto bíblico.

„Sentinela“ é o nome que as Testemunhas de Jeová (TJ) deram ao panfleto que distribuem de casa em casa ou propõem aos passantes nas ruas das nossas cidades. As TJ especializaram-se, como é sabido, em alertar o mundo para a proximidade do seu fim; são os arautos do fim do mundo.

Ser sentinela: assim Deus, pelas palavras de Ezequiel,  define a missão do profeta. A sentinela não dorme, está atenta ao que se passa à sua volta, coloca-se em posição de ver mais longe… para poder alertar o povo, avisar, alarmar, e assim convidar a agir, a mudar de vida se for o caso.

O profeta, sentinela de Deus no mundo, não é profeta de desgraças. Mas deve ter a coragem de falar da „desgraça“ que se aproxima se for o caso. Atento ao que se passa no mundo à sua volta, pergunta-se sem descanso – sem „dormir“ – que palavra, que „recado“ tem Deus para este mundo. Procura sem esmorecer a „Palavra de Deus“ a anunciar. E, se no seu anúncio, falar só da ameaça de Deus esquecendo que Deus é um Deus de amor e de perdão, corre o perigo de falsificar a imagem do próprio Deus.

A Igreja tem a pretensão de ser no mundo a „sentinela“ de Deus, de ter uma missão profética. Para isso precisa desta dupla atenção a Deus e ao mundo, típica do verdadeiro profeta. Uma atenção que não é de quem procura motivos para condenar, mas uma atenção preocupada e interessada de quem ama. Será que a tem?!

Das TJ tenho a impressão que a sua visão negativa do mundo e o seu fundamentalismo em relação à Escritura (lendo à letra a Bíblia, sem respeito pelo contexto) as impede completamente de serem vozes de profecia.

Nas Igrejas cristãs, acontece com frequência que somos positivamente surpreendidos pelo aparecimento de profetas tipo D. Hélder Câmara ou Martin Luther King, ou, nos nossos dias, o próprio papa Francisco. Qual sentinela vigilante, Francisco alerta a Igreja, a começar pela sua „cúria“ romana, para os perigos de um „eclesiocentrismo“ (de a Igreja se colocar no centro da mensagem) e entusiasma os cristãos a „sair“ para as periferias e aí testemunhar a preocupação de Deus pelo futuro do mundo.  Francisco fá-lo, contra todas as resistências que podem vir de todos aqueles que antes preferiam dormir e descansar…

E não há só as grandes figuras de profeta. Há muitos profetas por aí, na Igreja e na cidade… Quem os ouve? Quem os escuta?!

Se quiser, pode ler também a reflexão sobre o Evangelho deste domingo aqui disponível neste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/09/07/a-dinamica-dos-dois-ou-tres/

 

 

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Um Deus que seduz

A propósito do texto de Jeremias (20,7-9), proposto como primeira leitura deste 22º domingo comum A (03.09.2017). Leia antes o texto bíblico, por exemplo em http://www.evangeliumtagfuertag.org

„Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir…“ . Um cântico de amor? Não! Uma acusação, Um protesto do profeta junto do seu Deus. Seduziu-o e abandonou-o. Seduziu-o e „meteu-o ao barulho“, e não lhe deu o apoio que ele tanto precisava, no meio da solidão, do escárnio do povo, da frustração.

Destino de profeta? Condição do crente?  É o que parece. Quantas vezes o crente não se sente levado a fazer uma oração de protesto e de desilusão junto do seu Deus?

„Eu creio, Senhor. Mas é isto que queres para mim?“ „Eu tenho fé, mas como hei-de justificar a situação do mundo aos que me perguntam onde está o teu Deus?

Hoje, como ontem ao tempo de Jeremias, crer não é fácil. Mais difícil ainda assumir a causa de Deus num mundo como o nosso. Deus parece ter escolhido esta forma de se fazer presente: e prefere deixar o seu profeta, o seu amigo, sofrer, a impor  à força, a ferro e fogo, a sua mensagem.
No confronto actual com o terrorismo islamista, que vê „infiéis“ em todos os diferentes  e se autoriza a matar os „infiéis“ em nome do „seu“ Deus…  sabemos apreciar como nunca esta atitude de JaHVeH, o Deus de Jeremias e de Jesus,  e podemos apreciar esta atitude do profeta sofredor. Mais vale sofrer pela Palavra de Deus do que fazer sofrer. Mais vale levar a sua cruz que impô-la aos outros. Os seduzidos pelo amor de Deus – ao contrário dos fanáticos!! – vão por ai.

Se quiser, também pode ler o comentário ao evangelho deste domingo disponível neste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/08/30/caminhos-de-fidelidade/

 

 

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Um coração que sabe ouvir

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (30.07.017), 17º domingo comum A: 1 Reis 3,5.7-12

“Pelo sonho é que vamos” (Sebastião da Gama). Pelo sonho se exprimem verdades, projectos e desejos que na vida “acordada”, consciente, controlada, não ousamos pedir nem realizar. Mas se acreditamos num sonho e nos deixamos conduzir por ele, avançamos mesmo… Na Bíblia, o sonho é com frequência a porta e o espaço da revelação de Deus, um lugar de encontro, uma escada a ligar o céu e a terra.

Em sonhos, falou JaHVeH a Salomão, o jovem descendente do grande rei David, e desafiou-o a ousar pedir, a pedir sem receio. E, em sonhos, Salomão pediu que Deus lhe desse um “coração que saiba ouvir”, um coração “sábio” ou “inteligente” (conforme as traduções),  a fim de poder governar bem, conduzir o povo com discernimento, com sabedoria.

Deus gostou do pedido e concedeu-lho.

Aquilo de que todos os governantes mais necessitam é de um coração que saiba ouvir as necessidades e anseios, os sofrimentos e problemas do seu povo. Os pobres fazem tantas vezes a experiência de não encontrar ninguém que os atenda, ninguém que os ouça, que ninguém que os escute. Nesta escuta começa o discernimento. Da escuta depende tantas vezes a rectidão das decisões a tomar.
Mas não só os governantes. Cada um de nós precisa acima de tudo de um coração que saiba ouvir. As nossas relações uns com os outros e a nossa atitude na vida seriam bem mais fáceis se soubéssemos ouvir: ouvir a Deus e aos outros, ouvir à sua volta e dentro de si, ouvir os acontecimentos e os gemidos da vida.

Que bom seria se cada um sonhasse este sonho a que Deus convidou Salomão… E se o “sonho” da nossa vida e o pedido da nossa oração fosse este coração que sabe ouvir!

 

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Praia de Peniche

IMG_2867A cidade deita-se na areia
exposta ao céu azul
como um corpo de sereia

Corajosa, a muralha enfrenta o mar
Ora resistindo ora cedendo
e por ele se deixa beijar

ondas de azul e branco convidam
para encontros eróticos
as rochas em horas de maré cheia

E voltados para o céu e para o mar
espraiam-se como nos cafés de Paris
os veraneantes a ver o tempo passar

Julho 2017

 

 

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Mértola

IMG_2915O sol queima as pedras que os romanos talharam
e o calor entra a pique nas casas mouras
outrora de paredes frescas sem janelas
hoje postas a descoberto
por arqueólogos curiosos e persistentes

o casario branco disputa um lugar seguro
entre muralhas que protegem
do Guadiana ou de presumíveis invasores
resguardando a memória dos cavaleiros
de Santiago da cruz em forma de espada

e na Igreja voltada a Meca o silêncio
reza orações de paz e tolerância suspiro
desses crentes que colocaram os alicerces da história
aqui onde paleo-cristãos desceram aos baptistérios
e muçulmanos lavaram as mãos à entrada da mesquita

E o verão de sol céu azul e secura
cumula e tranquiliza o espaço e o tempo
o mais que passado, o passado e o presente
de uma calma (calor do Alentejo) e de poesia…
Mértola: cidade que vai acordar um dia !

Julho 2017

 

 

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