Todos convidados!


A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (19.08.2018), 20º domingo do tempo comum B: Provérbios 9,1-6

„A Sabedoria edificou a sua casa e levantou sete colunas.
Abateu os seus animais, preparou o vinho e pôs a mesa.
Enviou as suas servas a proclamar nos pontos mais altos da cidade:
«Quem é inexperiente venha por aqui».
E aos insensatos ela diz:
«Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei.
Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência».

A sabedoria – a »sophia» dos gregos –  é sempre muito mais que um saber racional, muito mais que um conhecimento empírico das coisas. Sabedoria tem a ver com a compreensão da vida e do mundo, do tempo e da eternidade. É mais a humildade de procurar – sabendo que nada sabemos – , do que a segurança de já conhecer.  Se para os gregos a sabedoria se alimentava do pensar (filosofia) e da experiência da vida (daí que os sábios  eram quase sempre pessoas de idade), para a visão bíblica do mundo a sabedoria é antes dom de Deus. Em alguns textos parece ser mesmo um nome para Deus: Deus é a Sabedoria.

Neste bonito texto do livro dos Provérbios (datado dos sec. IV ou III aC, precisamente o tempo dos grandes filósofos gregos), a Sabedoria é personificada na figura de uma senhora: ela constrói o seu próprio palácio (de sete colunas), faz a festa, põe a mesa, manda as empregadas convidar, alegra-se com cada um dos seus convidados e convidadas. E quem é convidado? Os simples – os sem experiência – e os insensatos.
Que os simples sejam os primeiros convidados, entende-se bem no contexto bíblico: são os simples, os que têm um um coração de pobre, os pobres de JaHWeH…. Mas,  e os insensatos?!   Também eles são recebem o convite! Começarão a perceber que a vida é diferente, se aceitarem e vierem, saindo de si….

Simples e “insensatos”: no fundo, todos o ser humano é convidado.  Os que não têm muita experiência da vida  e aqueles a quem uma vida ás vezes difícil e complicada levou a fazer experiências duras; os “ignorantes” ou tidos por tal, e os que se consideram “espertos” e “inteligentes”. Uns e outros têm caminho para fazer, na descoberta do verdadeiro sabor da vida. A Sabedoria (neste texto) convida para comer e beber, não para uma conferência ou para uma aula de teologia (!).

A sabedoria (dom de Deus) desafia-nos a fazer da vida uma verdadeira festa, onde ninguém fique de fora e todos sintam a alegria de ter nascido! A Sabedoria convida, a resposta é nossa!

Jn
14 08 2018

 

 

 

 

Advertisements
Veröffentlicht unter actualidade, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen

Travessia do deserto, a caminho da fonte

582F8DEF-31BE-42FA-80F7-E6FDE49FA21B

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo 12.08.2018, 19º domingo do tempo comum B: 1 Reis 19,4-8

Naqueles dias, Elias entrou no deserto e andou o dia inteiro.
Depois sentou-se debaixo de um junípero, e, desejando a morte, exclamou:
«Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais».
Deitou-se por terra e adormeceu à sombra do junípero.
Nisto, um Anjo do Senhor tocou-lhe e disse:
«Levanta-te e come».
Ele olhou e viu à sua cabeceira um pão cozido sobre pedras quentes e uma bilha de água. Comeu e bebeu e tornou a deitar-se.
O Anjo do Senhor veio segunda vez, tocou-lhe e disse:
«Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer».
Ele levantou-se, comeu e bebeu. Depois, fortalecido com aquele alimento,
caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, o Horeb.

Horas de desânimo e de exaustão, momentos de solidão e de fracasso, experiências de angústia existencial conhecem todos aqueles e aquelas que se empenham em grandes causas ou simplesmente ao serviço dos outros e pela mudança do mundo.
Elias foi um deles. Lutador incansável e arrojado pela fé em JaHWeH, Deus Libertador, contra os cultos alienantes de Baal, a certa altura teve de fugir e refugiar-se no deserto. Perseguia-o a raínha, a responsável número um pela sorte do seu povo, e simpatizante do culto a Baal. Talvez Elias, no seu zelo, tivesse ido longe demais. Aquela luta que terminou com a morte de mais de 400 sacerdotes de Baal foi com certeza um excesso. JaHWeH mesmo se vai encarregar de mostrar-lhe que não é assim que se luta, ou que não é essa a luta que Deus pede aos seus fieis. Deus não está no fogo nem no trovão, não está na tempestade nem no vendaval, mas na brisa suave. Deus é convite e não ditame. Deus sofre a “morte”, mas não mata.

Horas de desânimo. Horas em que apetece largar tudo e fugir para bem longe. Horas em que até se chega a desejar o fim. Horas de depressão. Horas de escuridão e de noite.
Como prosseguir?!
A espiritualidade bíblica propõe o voltar às fontes, à nascente, a “refontalização”. Deus alimenta o profeta e dá-lhe a força necessária para ele chegar ao Horeb, lá onde tudo começou; lá onde Deus se manifesta como fogo que não destrói a sarça; lá onde se dá a conhecer como um Deus Vivo que vê, ouve e conhece os problemas da humanidade.
Voltar às fontes, à nascente dos nossos ideais, à Galileia do nosso Evangeho. Creio que é isto mesmo que se propõe a todos os “idealistas” (no sentido mais literal da palavra: a todos os portadores de ideais) que caem no desânimo e na depressão. Quando se deixa de ver sentido em tudo o que até agora fizemos; quando todas as causas que antes nos entusiasmavam hoje nos parecem absurdas; quando o futuro nos parece causa perdida…. Deus convida-nos a ir até ao “Horeb”… e no caminho que nos leva até lá, garante-nos o alimento e água refrescante!

Jn 07.08.2018

Veröffentlicht unter actualidade, Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , , , | Kommentar hinterlassen

A crise como paradigma

6C556665-323C-4CBD-9417-BA1517FC033A

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 05.08.2018, 18º domingo comum B: Êxodo  16,2-4.12-15

Naqueles dias, toda a comunidade dos filhos de Israel começou a murmurar no deserto contra Moisés e Aarão. Disseram-lhes os filhos de Israel:
«Antes tivéssemos morrido às mãos do Senhor na terra do Egipto,
quando estávamos sentados ao pé das panelas de carne
e comíamos pão até nos saciarmos. Trouxestes-nos a este deserto, para deixar morrer à fome toda esta multidão».
Então o Senhor disse a Moisés:
«Vou fazer que chova para vós pão do céu. O povo sairá para apanhar a quantidade necessária para cada dia. Vou assim pô-lo à prova,
para ver se segue ou não a minha lei. Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Vai dizer-lhes:
‘Ao cair da noite comereis carne e de manhã saciar-vos-eis de pão.
 reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus’».

Na história de um povo, as situações de crise são tão normais como as situações de bem estar e de serenidade. Parece até que a crise faz avançar mais a história que as suas fases serenas.

Não foi diferente com o Povo de Israel. A diferença é que para este povo, cuja experiência enche as numerosas páginas da Bíblia, as crises nunca são só crises económicas ou sociais ou políticas. Toda a crise é interpretada sempre como uma crise de relação deste povo com o seu Deus, JaHWeH. A crise interroga essa relação, levanta a questão da fé/confiança, obriga o povo a perguntar-se sobre o lugar que Deus ocupa na sua história e “força” Deus a mostrar sempre de novo a sua fidelidade, o Seu amor e preocupação com o futuro da aliança.

A crise do deserto, de que fala esta leitura do Exodo, é paradigmática. Atormentado pela fome e pela sede, o povo murmura, põe mesmo em causa o sentido da liberdade pela qual tanto suplicara, chegando ao ponto de “ter saudades” da segurança material que a escravidão mesmo assim oferecia…
(Não continuamos a ver reacções destas nas situações dos povos contemporâneos?! A memória curta faz esquecer a dureza e a opressão, mistifica-se o passado ou reabilita-se para ficar melhor que o presente marcado pela crise, prefere-se a segurança na opressão ao risco da liberdade…)

A resposta de Deus é constituinte para a fé de todos os crentes em todos os tempos: o Deus que nos tirou da “escravidão” de uma vida para a morte, acompanha-nos e não nos faltará com o “maná” de cada dia nem com o alimento que devolve as forças necessárias para a caminhada. Como sinal de amor da sua previdência, Deus dá-nos o pão para cada dia – só para cada dia: acumular pode ser sinal da falta de confiança! Como sinal daquilo que Ele espera de nós dá-nos o alimento para avançar – voltar atrás é para aqueles quem não têm esperança ou deixaram de acreditar no futuro.

Na crise, nas crises – as colectivas e as de carácter pessoal -, somos desafiados a abrir os olhos para ver tudo o que o Senhor faz por nós. E assim encontraremos as forças para ultrapassá-las: “Então reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus’” (Ex 16,12)

Jn
31.07.2018

Veröffentlicht unter actualidade, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen

O pouco que vale muito

Tabgha.criancas.2016
A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 29.07.,  17º domingo do tempo comum B: 2 Reis 4,42-44

Naqueles dias, veio um homem da povoação de Baal-Salisa
e trouxe a Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita.
Eram vinte pães de cevada e trigo novo no seu alforge.
Eliseu disse: «Dá-os a comer a essa gente».
O servo respondeu:
«Como posso com isto dar de comer a cem pessoas?»
Eliseu insistiu:
«Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há-de sobrar’».
Deu-lhos e eles comeram, e ainda sobrou, segundo a palavra do Senhor.

O tema do pouco que se faz muito é uma constante bíblica. Aos olhos de Deus o pouco pode dar para muito e o muito pode valer bem pouco.
A partilha generosa tanto dos bens materiais como das atitudes e “riquezas” espirituais é principio divino de multiplicação.

Eliseu, o discípulo de Elias, sabia bem que a verdadeira religião e adoração de JaHWeH não se centra no templo nem no altar, nem a religião pode viver à custa da vida dos pobres. JaHWeH quer a vida do seu povo, é um Deus que dá e o que mais quer é que a vida chegue a todos. A adoração que Deus quer, o “jejum que Ele aprecia”, é a partilha na justiça, ou, como Jesus mais tarde viria a formular, é o amor.

No texto de hoje, fala-se de um homem proveniente da povoação de Baal-salisa (não será por acaso que o texto refere o nome da povoação… seria um centro de culto a Baal?! Ou seria este homem sem nome um convertido à fé em JaHWeH, deixado o culto a Baal?! ). Este crente sem nome veio com as suas ofertas: 20 pães de cevada e espigas do novo trigo. Destinar-se-iam a JaHWeH, a Ele se ofereciam as primícias. Por lei e por costume, os bens oferecidos a Deus terminavam na boca dos sacerdotes. Mas Eliseu decide partilhá-los com o povo. Um gesto profético bem expressivo. E eis que os 20 pães dão para muito. O povo comeu e ainda sobrou.

Não se pode dizer que no mundo actual se partilhe menos que dantes. As grandes campanhas de solidariedade por ocasião das catástrofes e guerras mostram-no bem. No entanto, globalmente, o mundo parece caracterizado pela ganância, pela preocupação do ter e do acumular, pela ética capitalista. Conta o muito. Importa é ter mais. E até os donativos partilhados nessas campanhas de solidariedade são medidos também por esta bitola. As Igrejas não escapam a esta lógica dos números, na contagem dos seus fiéis e dos contributos que eles dão.

Para que a generosidade daquele daquela/daquele que dá seja poupada a esta lógica capitalista, importa redescobrir a beleza bíblica da partilha a partir do coração daquele que dá, sabendo que o pouco aos olhos de Deus vale por muito. E que Deus multiplica o pouco apresentado com humildade.
A espiritualidade do pouco que ao olhos de Deus vale por muito dá confiança a todos os que, conscientes das suas fraquezas, se colocam diante de Deus, com o seu “pouco” pão. Um Deus que não quer sacrifícios nem holocaustos, mas um coração humilde.

Jn
25.07.2018

Veröffentlicht unter evangelho, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , | Kommentar hinterlassen

Pastor e pastores

bompastor1

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (22.07.) 16.o domingo comum B: Jeremias 23,1-6

Diz o Senhor: «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!»
Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que apascentam o meu povo: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções – oráculo do Senhor.
Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram e as farei voltar às suas pastagens, para que cresçam e se multipliquem.
Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto;
nem se perderá nenhuma delas – oráculo do Senhor.
Dias virão, diz o Senhor em que farei surgir para David um rebento justo.
Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria;
há-de exercer no país o direito e a justiça.
Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança.
Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’».

Tenho toda a simpatia pela figura do pastor. Conheço da minha infância o trabalho dos pastores, na minha aldeia numerosos. Pude comprovar a sua preocupação pelo “bem” das ovelhas, por não deixar nenhuma atrás, por as conduzir a bom pasto – temas que muitos conhecerão apenas dos textos bíblicos. O salmo 23 (22) é um dos textos / poemas / orações mais belos da bíblia e continua a ser lido e rezado e apreciado pelos crentes.

Apesar de tudo continuo a pensar que foi um alargamento semântico arriscado passar a tratar por pastores os dirigentes do povo de Israel. Enquanto aplicado apenas a JaHVeH, Pastor do Seu Povo, o título excluía à partida todas as conotações negativas que o termo directa ou indirectamente comportava. No momento em que a designação passou a ser aplicada aos reis e ao dirigentes religiosos, essas conotações não podiam mais ser excluídas. A experiência veio comprová-lo. Tratar um povo como um rebanho pode significar também explorá-lo, impor-se, servir-se dele.

E aí temos os profetas bíblicos, como é o caso de Jeremias neste texto, a denunciar os chefes que descuidam o devido acompanhamento do povo, descuidam a justiça e a unidade. Tratam o “rebanho” como fonte de carne para matadouro ou como propriedade sobre a qual podiam exercer o seu poder de qualquer forma. A experiência de Israel com os seus pastores não foi a melhor. Jeremias anuncia a esperança da vinda de um verdadeiro pastor, preocupado em servir o seu povo no direito e na justiça.

E mais complicada ainda é a aplicação ao Povo da palavra “rebanho”. “Rebanho” sugere a ideia de colectivo sem direitos nem autonomia. A confiança em Deus deve ser total quando de Deus se trata, mas, se os pastores são “homens como os outros”, com todos os limites dos humanos, o crente não pode obedecer como ovelha de um rebanho. Exige-se uma atitude de liberdade reflectida e adulta.

O Concílio Vaticano II revalorizou a consciência de cada baptizado e redescobriu a ideia de uma Igreja-povo de fiéis adultos e livres. Continua a falar de “pastores” e de “pastoral”. Mas o concílio deixou claro que único verdadeiro “Pastor” é Jesus Cristo, Bom Pastor, e todos os outros que se designam de pastores e aceitam ser tratados como tal não passam de seus colaboradores. Nem todas as conotações da alegoria do pastor e rebanho se podem aplicar sem mais aos dirigentes e aos membros desta comunidade chamada a ser Povo de Deus.

No vocabulário eclesial de língua portuguesa, é urgente evitar expressões como a de “tomar posse” para exprimir o início de funções de um bispo ou de um presbítero. Tomar “posse”?! Então não são ministros encarregados de servir ?!

Pessoalmente gosto muito do salmo 23: “O Senhor (JaHVeH) é meu pastor, nada me faltará”… Vou continuar a rezá-lo sem problemas. Mas, ao mesmo tempo, peço a esse Bom Pastor que me faça crescer numa fé adulta, autentica e pessoal, e me liberte do seguidismo, da passividade e da infantilidade típicas da ovelha do rebanho!

Jn
17.07.2018

Veröffentlicht unter actualidade, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , ,

Profetas, precisam-se! (2)

12A473D8-A4A7-4072-966F-0CD2AF56424A
A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 15.07.2018, 15º domingo comum B: Amós 7,12-15

Naqueles dias, Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós:
«Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá.
Aí ganharás o pão com as tuas profecias.
Mas não continues a profetizar aqui em Betel,
que é o santuário real, o templo do reino».
Amós respondeu a Amasias:
«Eu não era profeta, nem filho de profeta.
Era pastor de gado e cultivava sicómoros.
Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse:
‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’».

“Uma jornalista de Malta, que não se deixa intimidar e investiga e publica sobre corrupção e branqueamento de dinheiros e acaba por pagar a vida o seu empenhamento; pessoas corajosas da China, mesmo se poucas, mas bem situadas e formadas, que se deixam tocar pela precariedade económica e pela opressão dos camponeses; (…) Pessoas que sofrem com a violência e a injustiça mesmo se a elas mesmas não lies toca directamente; Pessoas que se erguem e chamam à injustiça pelo seu nome, mesmo se a injustiça parece ser a regra. Elas fazem-no. E fazem-no livremente, livres de toda a obrigação”

Este é o comentário – ou “impulso” – que a revista litúrgica alemã “Magnificat” (Julho 2018) faz a este texto do livro de Amós. Identifico-me inteiramente com esta hermenêutica de abertura: os profetas não se encontram só na Igreja e nas comunidades religiosas. Os profetas andam aí, no mundo, no meio da sociedade. Podem não falar explicitamente em „nome de Deus“ mas anunciam a justiça e a igualdade; denunciam as ofensas e ataques à dignidade humana: dignidade das criaturas de Deus, dignidade de Deus em cada ser humano.
São profetas cada um/a a seu modo. Mas com a mesma convicção com que Amós denunciava as injustiças sociais do seu tempo. Os sacerdotes – do altar e do trono – mandavam-no calar. Hoje não é diferente.

Jn
10.07.2018

Veröffentlicht unter actualidade, evangelho, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen

Profetas, precisam-se!

BCCC6B4B-2816-4A4C-8340-CA45D232056F

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (08.07.2018),14.o domingo tempo comum B : Ezequiel 2,2-5

Naqueles dias, o Espírito entrou em mim e fez-me levantar.
Ouvi então Alguém que me dizia: `Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim.
Eles e seus pais ofenderam-Me até ao dia de hoje. É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio, para lhes dizeres:
‘Eis o que diz o Senhor’.
Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes -,
mas saberão que há um profeta no meio deles`”.

A figura do profeta bíblico é sempre fascinante. Profetas diferentes nas suas biografias, nas suas posturas, nas suas mensagens, une-os a consciência e a pretensão de falar em nome de Deus: “Eis o que diz o Senhor….”
Visionários e sonhadores no anúncio como Isaías, corajosos na denúncia como Amós, pessimistas como Jeremias, os profetas são a voz livre de Deus no meio do povo. Acompanham criticamente a sua caminhada, denunciando os erros e falhas, anunciando o futuro, testemunhando a paciência e o amor de Deus. Para isso, são quase sempre obrigados a manter uma distância de segurança em relação a sacerdotes e a reis.

A intervenção dos profetas bíblicos foi sempre importante, mas teve uma importância decisiva no meio das grandes crises que o Povo teve de atravessar. Foi o caso de Ezequiel, exilado também ele entre os exilados da primeira leva dos deportados para Babilónia. Ezequiel intervém para encorajar o seu Povo e sobretudo os responsáveis a enfrentar a situação sem a menosprezar, que a situação era séria e para durar. E, ao mesmo tempo, para afirmar a esperança: seja como for, Deus não abandona o seu Povo.

Nas crises do nosso tempo, necessitamos também de vozes proféticas. Vozes que venham denunciar as responsabilidades humanas nas alterações climáticas; vozes que saibam denunciar as situações de insuportável miséria e injustiça que estão na origem e por detrás da fuga e migração de mais de 60 milhões de pessoas; vozes que não desistam de protestar contra a nova corrida aos armamentos e a subordinação das políticas aos interesses económicos; vozes que publiquem os atentados contra os direitos humanos e mobilizem a solidariedade para com todas as vítimas… Precisamos de profetas. É verdade que não faltam por aí grupos e iniciativas, ONGs e movimentos que saem à rua para denunciar. Creio que neles actua o Espírito de Deus, mesmo se nos programas e acções não lhe fazem qualquer referência e merecem apoio precedido de um indispensável discernimento. Mas parece-me que era importante que as Igrejas cristãs e as religiões em conjunto o fizessem, “em nome de Deus”, com a autoridade de Deus que é – devia ser! – garantia de isenção e de liberdade face aos poderes e interesses “deste mundo”. “Eis o que diz o Senhor…”

O papa Francisco (na linha de muitos outros contemporâneos: Hélder Câmara, Pedro Casaldaliga, Oscar Romero e muitos outros…), tem tomado algumas atitudes proféticas, com palavras e gestos que o mundo bem registou. Denunciou a globalização da indiferença; a economia que mata; a falta de respeito pelas minorias, a arrogância da cúria… Mas será que a Igreja o segue neste caminho de profecia?
Às vezes, parece-me que não. Em vez de assumir a profecia sobre as grandes causas da humanidade, os responsáveis das igrejas parece preocuparem-se sobretudo com questões e divergências internas que a sociedade de hoje não entende, por mais importantes que noutros tempos tenham sido .

“Quem me dera que o Espírito de Deus descesse sobre todo o povo e que todo o povo fosse um povo de profetas!”, respondeu Moisés aos “zelosos” que se manifestaram preocupados com o facto de haver quem profetizasse sem autorização nem ministério reconhecido.

O Concílio Vaticano II redescobriu a competência profética de cada baptizado. Recebemos todos o Espírito que pode fazer de nós profetas. No entanto, estamos muito longe da prática quotidiana deste reconhecimento da competência de “todos”. Conheço alguns casos: leigos que estudaram teologia e depois de vários anos de dedicação pastoral acabam por pedir a admissão ao diaconado, na esperança de serem finalmente reconhecidos pelo “ministério ordenado” que os introduz no círculo do poder e assim serem tratados por “igual” pelos membros da hierarquia que “tomou posse” da instituição. Essa mesma hierarquia que, hoje como tempo de Jesus, não se cansa de querer controlar a profecia e os profetas.

Jn
03.07.2018

 

 

Veröffentlicht unter actualidade, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen