Acolher o Espírito de Deus na pessoa do profeta

Pfingsgaben

A propósito do texto de Isaías proposto como 1ª leitura para este domingo, III do Advento B: Isaías 61,1-2a.10-11 (aqui reproduzido parcialmente):

O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu e me enviou
a anunciar a boa nova aos pobres,
a curar os corações atribulados,
a proclamar a redenção aos cativos
e a liberdade aos prisioneiros,
a promulgar o ano da graça do Senhor.
Exulto de alegria no Senhor,
a minha alma rejubila no meu Deus,
que me revestiu com as vestes da salvação
e em envolveu num manto de justiça … „

“O Espírito do Senhor está sobre mim… “ – assim se apresenta um profeta diante do seu povo. Ele tem consigo um programa espiritual ousado e profundo, mas desde o princípio deixa claro que tudo o que ele fizer nessa linha é obra do Espírito de Deus que o enviou e nele actua. Desde os tempos de Moisés que no Povo de Israel existia a consciência de que Deus dá, ou pode dar, o Seu Espírito a cada homem e a cada mulher, colocando-os assim ao serviço do povo. “Quem dera que todo o povo de JaHWeH profetizasse e que JaHWeH enviasse o Seu Espírito sobre ele“, responde Moisés a quem pretendia que fossem proibidos profetizar quem estava de fora do “grupo” oficial dos anciãos (ver Num 11, 26-30) É este mesmo Espírito que vai actuar em Maria e descer em plenitude sobre Jesus de Nazaré. Os evangelhos são unânimes a referir a importância da experiência baptismal na vida e na caminhada de Jesus. Lucas relata-nos o episódio da sua ida à sinagoga de Nazaré, quando coube a Jesus ler exactamente este texto de Isaías e ele comenta-o da forma mais pessoal que a Palavra de Deus pode ser comentada: “este texto da Escritura que acabais de ouvir” cumpre-se em mim, hoje e aqui (ver Lc 4,14-21). Se na Igreja dos primeiros tempos ainda se vivia muito da consciência da presença do Espírito de Deus em cada baptizado, com o tempo o reconhecimento da presença do “Espírito” e a sua “posse” (!!) passou a ser tida como privilégio da instituição, dos ministros ordenados, da hierarquia. Foi preciso esperar pelo papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II para que lentamente se recuperasse a consciência e se voltasse a ouvir a afirmação de fé na presença do Espírito de Deus em cada baptizado, independentemente da sua condição e opções de vida. O Espírito de Deus não está reservado a uma “casta”, mas é dado a cada um, a cada uma (ver LG 12).

A acção do Espírito na actividade do profeta é emblemática: anunciar a boa nova do amor de Deus aos pobres, curar e animar os que sofrem, despertar o gosto pela liberdade e ajudar a viver nessa liberdade de filhos e filhas de Deus, promover a dignidade e testemunhar a preocupação de Deus com todas as suas criaturas, como em ano de grande jubileu. O programa do profeta anónimo pos-exílio, neste texto que se agregou ao livro de Isaías, foi validado por Jesus e confirmado por centenas e milhares de anos na história da fé bíblico-cristã. Apesar de todas as restrições e preocupações de controle, o Espírito não deixou de actuar e de se manifestar. Por isso, é caso para dizer com o profeta: “Exultemos de alegria no Senhor!”

Jn 14.12.2017

Se quiser também pode ler a reflexão feita a partir do Evangelho deste 3º domingo do advento, disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/12/12/o-testemunho-de-joao/

 

 

Advertisements
Veröffentlicht unter Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen

Consolação da fé nos caminhos do mundo

calceteiro

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este 2º domingo do advento B Is 40,1-5.9-11 (aqui parcialmente reproduzido):

Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa, porque recebeu da mão do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados. Uma voz clama: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas.

Num clima de depressão, como era a do povo de Israel em Babilónia, um profeta anuncia o começo de um novo tempo: terminarão em breve os “trabalhos” e dificuldades deste povo de exilados e um caminho novo se abre através do deserto. Esse caminho, ou estrada, é o caminho pelo qual o próprio Deus virá buscar o seu povo, para o reconduzir a casa, como um pastor que reconduz o seu rebanho tresmalhado.   “Eis o vosso Deus, o Senhor vem com poder!” O povo podia consolar-se com esta esperança de uma libertação eminente.

Em pleno sec. XIX, acusou-se a religião e as suas igrejas e instituições de serem ópio do povo: de alimentar uma esperança que nunca se havia de realizar, ou de adiar para o “além” e para o „depois da morte” aquilo que devia ser tarefa aqui e agora. O “além” e as suas promessas teriam a função de placebo, de ópio, consolação paliativa nos sofrimentos deste mundo. Religião era igual a resignação e alienação.

Quem lê estes textos nas origens bíblicas da nossa fé encontra tudo menos alienação ou convite à resignação. São convites, isso sim, a erguer-se, a animar-se, a meter-se ao caminho, a ultrapassar a resignação e o desânimo, a partir de sinais concretos e animadores. No caso deste texto, o sinal animador era o fim iminente do poder de Babilónia graças às vitórias de Ciro, o rei da Pérsia. E a mensagem para esta situação era que Deus estava por detrás de tudo isto, porque os caminhos de Deus são os caminhos da humanidade. Bom sei que nem sempre foi assim. Bem sei que houve – e porventura há – muitas formas de religiosidade que desligam os crentes das tarefas do mundo e animam com uma pseudo-esperança que não muda a vida, quando promete prémios no céu e assim procura tirar à morte o seu lado tremendo.

A Igreja católica reafirmou em pleno sec. XX a sua convicção de que as alegrias e sofrimentos, as esperanças e desencantos da humanidade são a realidade onde somos chamados a viver a fé. Uma fé sem empenhamento concreto no arranjo e melhoramento dos caminhos do mundo (“aplanar”, “endireitar”, “altear vales”, “abater colinas”) de modo a fazer deles caminhos do Senhor não é a fé de Jesus Cristo nem a fé dos profetas da Bíblia. A conversão pessoal, a penitência, de que tanto falava João Baptista (ver o evangelho deste domingo), passa por aí: deixar uma religião individualista e intimista (que finalmente seria sempre alienante) para uma religião que me envolve ao serviço do projecto de Deus para este mundo!

Jn 06.12.2017

Se  quiser, também pode ler a reflexão feita a partir do texto do evangelho deste domingo, disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/12/05/preparar-caminhos/

Veröffentlicht unter Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , | Kommentar hinterlassen

„Rasgai os céus e voltai!“

 

 

jerusalem_murolam

A propósito do  texto  proposto como primeira leitura para este primeiro domingo do Advento B 

Isaías  63,16b-17.19b; 64,2b-7

Vós, Senhor, sois nosso Pai
e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome.
Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos
e endurecer o nosso coração, para que não Vos tema?
Voltai, por amor dos vossos servos
e das tribos da vossa herança.
Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!
Ante a vossa face estremeceriam os montes!
Mas Vós descestes
e perante a vossa face estremeceram os montes.
Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram
que um Deus, além de Vós,
fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam.
Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça
e recordam os vossos caminhos.
Estais indignado contra nós,
porque pecámos e há muito que somos rebeldes,
mas seremos salvos.
Éramos todos como um ser impuro,
as nossas acções justas eram todas como veste imunda.
Todos nós caímos como folhas secas,
as nossas faltas nos levavam como o vento.
Ninguém invocava o vosso nome,
ninguém se levantava para se apoiar em Vós,
porque nos tínheis escondido o vosso rosto
e nos deixáveis à mercê das nossas faltas.
Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai
e nós o barro de que sois o Oleiro;
somos todos obra das vossas mãos.

Entre a lamentação e a suplica, entre a confissão das faltas e a confiança no perdão se baseia esta oração da parte final do livro de Isaías (que costuma designar-se por trito-Isaías).  Perante um Deus que parece estar longe, fechado nos “céus”, os crentes de Israel até parecem insinuar que Deus também é “culpado” nesta situação deprimente do pos-exílio:  “porque nos tínheis escondido o vosso rosto e nos deixáveis à mercê das nossas faltas”. E a este Deus, que pretende estar presente (JaHWeH) mas que se sente como o grande ausente, a fé dos crentes faz um desafio, expresso em imperativos como “descei”, “mostrai-nos a vossa face”, “voltai!”.

Até onde pode ir a oração-lamentação? Quanto protesto e quanta queixa “contra Deus” suporta a nossa fé?  Toda a oração procura vencer a distância sentida entre nós e Deus. Tomar consciência da Sua presença, quando tudo parece correr bem. Lamentar a Sua ausência, quando Ele nos falta e um grande vazio nos rodeia. Pedir a Sua intervenção, quando o mundo à nossa volta nos parece insuportável. Lembrar-lhe a sua condição de criador, quando a nossa existência está ameaçada.

“Deus toma parte em tudo o que é destino da pessoa humana. Quem o bendiz por Jerusalém e não o interroga acerca de Treblinka *, é um impostor. Deus é pergunta e é resposta ao mesmo tempo” (Elie Wiesel).  A fé cristã tem de voltar a ser uma teodiceia: um confronto entre sofrimento das pessoas e do mundo e a profissão do amor infinito de Deus. Se Deus é bom, é Amor, como permite o sofrimento e a infelicidade? A fé cristã tem de deixar de ser uma moral do pecado (atenção ao pecado) para ser sobretudo uma “moral do sofrimento” (J-B Metz).

Deus esconde de nós o seu rosto ou fomos nós que deixamos de O saber ver?
É ele que está fechado nos céus ou somos nós que nos habituamos a viver e a gerir o nosso mundo como se Ele não existisse?  O pecado e a falta dos “filhos” e do povo no seu conjunto justificam a “ausência” daquele que é “Pai” e “Redentor”?

Apelos a Deus e interrogações a este mesmo Deus enchem a vida do crente.
O profeta propõe-nos a oração como espaço para levantar todas essas interrogações / lamentações e alimenta em nós a confiança do Advento. O oleiro não deixará cair a obra das suas mãos!

Jn 29.11.201

*Treblinka = campo de concentração nazi, onde foram mortos cerca de 1 milhão de judeus de toda a Europa. Elie Wiesel é um sobrevivente de Auschwitz e de Buchenwald, dois outros campos de morte dos nazis.

Se quiser, também pode ler a reflexão feita a partir do texto do evangelho para este domingo, disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/11/28/como-um-homem-que-partiu-de-viagem-advento-entre-presenca-e-ausencia-de-deus/

Veröffentlicht unter Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , | Kommentar hinterlassen

Mais pastor que rei

hirte

A propósito do texto da primeira leitura deste 34º domingo – festa de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo:  Ezequiel 34,11-12.15-17

Eis o que diz o Senhor Deus:
«Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei-de encontrá-las.
Como o pastor vigia o seu rebanho,
Quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas,
para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram
num dia de nevoeiro e de trevas.
Eu apascentarei as minhas ovelhas,
Eu as levarei a repousar, diz o Senhor.
Hei-de procurar a que anda tresmalhada.
Tratarei a que estiver ferida,
darei vigor à que andar enfraquecida
E velarei pela gorda e vigorosa.
Hei-de apascentá-las com justiça.
Quanto a vós, meu rebanho,
assim fala o Senhor Deus:
Hei-de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas,
entre carneiros e cabritos».

Em contextos culturais urbanos e industriais,  a imagem do rebanho e do pastor  talvez se reduza a poesia, sem corpo, sem cheiro…  Mas há que reconhecer que ela é portadora de uma densa carga simbólica. Quanto carinho não se esconde neste quadro poético de Ezequiel: o  pastor que busca uma-a-uma as suas ovelhas,  que vigia sobre elas, que reconduz a tresmalhada, trata da que está ferida ou se ocupa prioritariamente da carenciada,  e conduz todo  o rebanho a lugares onde pode comer e descansar… O pastor passa o dia com as suas ovelhas,  ele conhece-as e tem um nome para cada uma, a sua roupa cheira a estábulo…

Na história cultural da humanidade, desde “Abel”, poucas profissões podem concorrer  simbolicamente com a figura do pastor. Não admira que Israel falasse do seu Deus, de JaHWeH,  com estas imagens de carinho. Não admira que Ezequiel e outros profetas tenham colocado na boca de Deus poemas como este.
O Senhor, Ele mesmo, é o pastor do seu povo . Deus tem com o povo uma relação que não se pode traduzir em títulos de poder ou de posse –  como seria o título de rei, de faraó ou de imperador — mas em imagens de presença carinhosa, como a de um pastor, a de um guia que é sobretudo companheiro preocupado.

A imagem do Bom Pastor é difícil de superar em força expressiva. O salmo 23 – „o Senhor é meu pastor, nada me faltará…“ – é uma  verdadeira pérola no tesouro da fé dos crentes… Seria bom que, ao menos de vez em quando, reformulássemos o “credo” para professar a partir de textos bíblicos como este a nossa fé e a nossa confiança em Deus: “Creio em Deus, meu pastor, meu guia, meu companheiro… Ele me guia, me conduz, me protege, me apascenta…”

No texto de Ezequiel esconde-se também uma certa crítica a todos os que se “armaram” em pastores e desleixaram o seu povo.  A profecia promete um futuro melhor, porque o próprio Deus vai pessoalmente  tomar conta do seu povo e recuperar a condução do seu “rebanho”.

O alargamento, na linguagem eclesiástica, da imagem do pastor  aos bispos e até aos padres é, no mínimo, ousado,  arriscado. Afinal só Ele é o verdadeiro pastor do Seu povo e só Ele é BOM pastor, quem se pode comparar com ele?! Porque neste povo tem de haver estruturas comunitárias e uma certa organização com pessoas responsáveis, surgiram os pastores por “delegação”,   pastores-auxiliares do verdadeiro Pastor.  Mas Ele nem está ausente nem distante. Em Jesus Cristo, deu-nos um “Pastor eterno” (LG 18), para sempre. As primeiras comunidades cristãs preferiram falar de anciãos — em grego, “presbíteros” —  ou de bispos (vigilantes, cuidadores). Pastor do Povo de Deus é o próprio  Deus e nós somos todos „ovelhas do seu rebanho“, todos chamados a ser membros activos, sujeitos, adultos, no Espírito que nos confere a igualdade de dignidade.

É bom que a Igreja proponha para esta festa de Cristo-Rei a imagem do “pastor”. Também Jesus preferiu a imagem do Pastor a todas as outras.  A ambiguidade inerente à imagem do  “rei”  é assim corrigida pela imagem do pastor… Não o poder dos senhores deste mundo, mas o carinho do amor de Deus move Jesus no seu anúncio do Reino de Deus.

Jn
21.11.2017

Se quiser, pode ler também a reflexão feita a partir do texto do evangelho deste domingo da Festa de Cristo Rei disponível nos arquivos deste blog (Novembro 2014): https://jamnunes.wordpress.com/2014/11/21/896/

 

Veröffentlicht unter Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , | Kommentar hinterlassen

Como a mulher

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 32. do tempo comum   A – Prov 31,10-13.19-20.30-31
Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa?
O seu valor é maior que o das pérolas.
Nela confia o coração do marido,
e jamais lhe falta coisa alguma.
Ela dá-lhe bem-estar e não desventura,
em todos os dias da sua vida.
Procura obter lã e linho
e põe mãos ao trabalho alegremente.
Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso.
Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente.
A graça é enganadora e vã a beleza;
a mulher que teme o Senhor é que será louvada.
Dai-lhe o fruto das suas mãos,
e suas obras a louvem às portas da cidade.


Numa igreja (ainda) dominada por homens como é a nossa, a mulher é apresentada neste domingo como modelo do discípulo empenhado e diligente, desafiado a fazer render os dons e talentos que Deus lhe deu, ao serviço dos outros, da comunidade e do mundo.
Não era menos patriarcal a sociedade e a comunidade judaica a quem se dirige o livro dos provérbios, que ousa atribuir-se a Salomão – o rei sábio por excelência – mas que de facto é uma coleção de ditos sapiênciais de carácter pedagógico .

As virtudes atribuídas à mulher pelo livro dos provérbios, no fundo, são para todos: disponibilidade e fidelidade na comunidade de vida, diligência no trabalho, boa gestão dos bens e recursos, solidariedade e sensibilidade para com os necessitados… Hoje diríamos : são qualidades humanas que nos habilitam a ser bons cidadãos, lá onde cada um(a) está.

A ética cristã compromete com esta visão do ser humano. Não fomos criados para nós mesmos mas para os outros, para o amor. E o amor manifesta-se no concreto: no modo como estamos no mundo e no modo como assumimos as nossas responsabilidades e empenhamentos . Ninguém pode lamentar-se que não tem nada a partilhar nem serve para nada. O criador a todos deu “talentos”, dons e qualidades, recursos e potencialidades. Que fazemos deles? O criador há-de perguntar-nos por eles.

Ainda a mulher: A Igreja tem ao seu dispor a boa vontade de tantas mulheres que estão prontas a servir em todos os campos em que a Igreja necessita. Não se entende que a Igreja (católica) continue a recusar a ordenação das mulheres, muito menos se entende que um papa tenha pretendido fechar essa porta para sempre…

Empenhar-se na vida, na comunidade e no mundo como a mulher exemplar do livro dos provérbios. Por os talentos, os dons e as pérolas a render…

Jn
14.11.2017

Se quiser, pode também ver a reflexão feita a partir do texto do Evangelho para este domingo, que está disponível nos arquivos deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/11/14/o-nosso-medo-e-a-confianca-de-deus/

Veröffentlicht unter Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , | Kommentar hinterlassen

Vale a pena procurar!

kompass

A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo 32º do tempo comum A: Sab 6,12-16:

“A Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável;
deixa-se ver facilmente àqueles que a amam
e faz-se encontrar aos que a procuram.
Antecipa-se e dá-se a conhecer aos que a desejam.
Quem a busca desde a aurora não se fatigará,
porque há-de encontrá-la já sentada à sua porta.
Meditar sobre ela é prudência consumada,
e quem lhe consagra as vigílias depressa ficará sem cuidados.
Procura por toda a parte os que são dignos dela:
aparece-lhes nos caminhos, cheia de benevolência,
e vem ao seu encontro em todos os seus pensamentos.”

 
Numa altura – e não há assim tanto tempo – em que a doutrina da Igreja era feita ainda a partir de postulados como “fora da Igreja não há salvação”, surgiu na teologia a expressão  “cristãos anónimos” para designar todas as mulheres e homens de todos os tempos e de todos os povos que, sem chegar (visivelmente) ao conhecimento do verdadeiro Deus e de Jesus Cristo, e portanto, estando formalmente fora dos limites da Igreja, buscam na sua vida a verdade e a procuram praticar. Creio que ela provém de Karl Rahner.

Por esse mundo além, há muitas mulheres e homens que se  deixam orientar na sua vida pelo brilho da verdade, da “sabedoria”. Procuram a justiça, buscam o bem, praticam a paz. Vivem da sabedoria que Deus colocou ao alcance do coração humano. Quem a procura, encontra-a, asseguram-nos já os sábios de Israel.
Para os gregos, a sabedoria era sobretudo conhecimento. Para os judeus a „sabedoria“ era prática de vida e a „Torah“ era a preciosa ajuda a orientar os passos do justo. Justo é o que procura a sabedoria de Deus e à sua luz caminha. Partindo da “Torah”, os judeus tiveram de reconhecer que o seu Deus era o Deus de todos os povos e que em todos os povos havia pessoas justas e buscadoras de Deus.

No nosso tempo, divulgou-se a expressão “pessoas de boa vontade”.  Foi a elas que a paz foi prometida pelos anjos que anunciaram o nascimento de Jesus.  É para elas que a Igreja tem de falar e com elas procurar os caminhos do Reino de Deus. João XXIII dirigiu a sua mensagem “Pacem in Terris”.

“A natureza espiritual da pessoa humana encontra e deve encontrar a sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito do ser humano à busca e amor da verdade e do bem, e graças à qual ele é levado por meio das coisas visíveis até às invisíveis.” (Concílio Vaticano II, GS 15)  E ainda: “O ser humano tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado” (GS 16).

Há uma certeza, a “sabedoria” de Deus (no fundo, DEUS ele mesmo) deixa-se encontrar por todos os que a procuram ! O ser humano tem capacidade para encontrar: Deus mesmo lha deu. Vale a pena procurar!

Jn
10.11.2017

Veröffentlicht unter Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , , | Kommentar hinterlassen

Soli Deo! Viva a fraternidade!

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este 31º domingo comum A: Malquias 1,14b-2,2b.8-10

„Soli Deo“ : assim se designa vulgarmente nos meios católicos o pequeno barrete („pileolus“) que os bispos colocam sobre a sua cabeça, semelhante à „kippa“ dos judeus. Não se tira diante de ninguém ninguém, e quer significar que só a Deus se presta glória, porque só Ele é Senhor.

No Povo de Deus somos todos filhos do mesmo Pai – diz a primeira leitura –
isto é, a fraternidade é um mandamento fundamental
– e a igualdade na dignidade de todos os filhos de Deus
é um princípio constitutivo deste Povo de Deus.

„Não temos todos nós um só Pai?
Não foi o mesmo Deus que nos criou?
Então porque somos desleais uns para com os outros,
profanando a aliança dos nossos pais?“
– assim reflecte o profeta Malaquias este princípio fundamental da nossa fé: „Só Deus é Senhor“, só Ele é Pastor das nossas vidas, só a Ele devemos glória e obediência de consciência.

No início do Concílio Vaticano II, havia um projecto para um documento sobre a Igreja estruturado a partir do princípio hierárquico: começando pelo Papa e terminando nos leigos. Um bom grupo de padres do Concílio – apoiado por brilhantes teólogos – recusaram-se a entrar nesse esquema e exigiram um documento de trabalho que partisse da categoria de Povo de Deus e, nela, da igual dignidade de todos os seus membros. Esta iniciativa prevaleceu… a Lumen Gentium surgiu e foi aprovada…  O Espírito fez-se vento e o barca de Pedro andou em frente…

Só os anos do pós-concílio vieram mostrar que esta nova perspectiva teológica demora a passar à prática. A resistência é grande, como se mostra nas actuais tensões à volta do Papa Francisco. A resistência à mudança organiza-se. Continua a haver „senhores“ e arrogância de senhores dentro desta Igreja de irmãos e irmãs. Continuam a excluir-se as mulheres dos ministérios ordenados…

Malaquias não pode ser mais claro: a fraternidade / irmandade é um princípio absoluto neste Povo que se diz Povo de Deus.

 

Veröffentlicht unter actualidade, Palavras que não passam (AT), Uncategorized | Verschlagwortet mit , , , , , | Kommentar hinterlassen