Como a mulher

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo, 32. do tempo comum   A – Prov 31,10-13.19-20.30-31
Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa?
O seu valor é maior que o das pérolas.
Nela confia o coração do marido,
e jamais lhe falta coisa alguma.
Ela dá-lhe bem-estar e não desventura,
em todos os dias da sua vida.
Procura obter lã e linho
e põe mãos ao trabalho alegremente.
Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso.
Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente.
A graça é enganadora e vã a beleza;
a mulher que teme o Senhor é que será louvada.
Dai-lhe o fruto das suas mãos,
e suas obras a louvem às portas da cidade.


Numa igreja (ainda) dominada por homens como é a nossa, a mulher é apresentada neste domingo como modelo do discípulo empenhado e diligente, desafiado a fazer render os dons e talentos que Deus lhe deu, ao serviço dos outros, da comunidade e do mundo.
Não era menos patriarcal a sociedade e a comunidade judaica a quem se dirige o livro dos provérbios, que ousa atribuir-se a Salomão – o rei sábio por excelência – mas que de facto é uma coleção de ditos sapiênciais de carácter pedagógico .

As virtudes atribuídas à mulher pelo livro dos provérbios, no fundo, são para todos: disponibilidade e fidelidade na comunidade de vida, diligência no trabalho, boa gestão dos bens e recursos, solidariedade e sensibilidade para com os necessitados… Hoje diríamos : são qualidades humanas que nos habilitam a ser bons cidadãos, lá onde cada um(a) está.

A ética cristã compromete com esta visão do ser humano. Não fomos criados para nós mesmos mas para os outros, para o amor. E o amor manifesta-se no concreto: no modo como estamos no mundo e no modo como assumimos as nossas responsabilidades e empenhamentos . Ninguém pode lamentar-se que não tem nada a partilhar nem serve para nada. O criador a todos deu “talentos”, dons e qualidades, recursos e potencialidades. Que fazemos deles? O criador há-de perguntar-nos por eles.

Ainda a mulher: A Igreja tem ao seu dispor a boa vontade de tantas mulheres que estão prontas a servir em todos os campos em que a Igreja necessita. Não se entende que a Igreja (católica) continue a recusar a ordenação das mulheres, muito menos se entende que um papa tenha pretendido fechar essa porta para sempre…

Empenhar-se na vida, na comunidade e no mundo como a mulher exemplar do livro dos provérbios. Por os talentos, os dons e as pérolas a render…

Jn
14.11.2017

 

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Vale a pena procurar!

kompass

A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo 32º do tempo comum A: Sab 6,12-16:

“A Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável;
deixa-se ver facilmente àqueles que a amam
e faz-se encontrar aos que a procuram.
Antecipa-se e dá-se a conhecer aos que a desejam.
Quem a busca desde a aurora não se fatigará,
porque há-de encontrá-la já sentada à sua porta.
Meditar sobre ela é prudência consumada,
e quem lhe consagra as vigílias depressa ficará sem cuidados.
Procura por toda a parte os que são dignos dela:
aparece-lhes nos caminhos, cheia de benevolência,
e vem ao seu encontro em todos os seus pensamentos.”

 
Numa altura – e não há assim tanto tempo – em que a doutrina da Igreja era feita ainda a partir de postulados como “fora da Igreja não há salvação”, surgiu na teologia a expressão  “cristãos anónimos” para designar todas as mulheres e homens de todos os tempos e de todos os povos que, sem chegar (visivelmente) ao conhecimento do verdadeiro Deus e de Jesus Cristo, e portanto, estando formalmente fora dos limites da Igreja, buscam na sua vida a verdade e a procuram praticar. Creio que ela provém de Karl Rahner.

Por esse mundo além, há muitas mulheres e homens que se  deixam orientar na sua vida pelo brilho da verdade, da “sabedoria”. Procuram a justiça, buscam o bem, praticam a paz. Vivem da sabedoria que Deus colocou ao alcance do coração humano. Quem a procura, encontra-a, asseguram-nos já os sábios de Israel.
Para os gregos, a sabedoria era sobretudo conhecimento. Para os judeus a „sabedoria“ era prática de vida e a „Torah“ era a preciosa ajuda a orientar os passos do justo. Justo é o que procura a sabedoria de Deus e à sua luz caminha. Partindo da “Torah”, os judeus tiveram de reconhecer que o seu Deus era o Deus de todos os povos e que em todos os povos havia pessoas justas e buscadoras de Deus.

No nosso tempo, divulgou-se a expressão “pessoas de boa vontade”.  Foi a elas que a paz foi prometida pelos anjos que anunciaram o nascimento de Jesus.  É para elas que a Igreja tem de falar e com elas procurar os caminhos do Reino de Deus. João XXIII dirigiu a sua mensagem “Pacem in Terris”.

“A natureza espiritual da pessoa humana encontra e deve encontrar a sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito do ser humano à busca e amor da verdade e do bem, e graças à qual ele é levado por meio das coisas visíveis até às invisíveis.” (Concílio Vaticano II, GS 15)  E ainda: “O ser humano tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado” (GS 16).

Há uma certeza, a “sabedoria” de Deus (no fundo, DEUS ele mesmo) deixa-se encontrar por todos os que a procuram ! O ser humano tem capacidade para encontrar: Deus mesmo lha deu. Vale a pena procurar!

Jn
10.11.2017

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Soli Deo! Viva a fraternidade!

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este 31º domingo comum A: Malquias 1,14b-2,2b.8-10

„Soli Deo“ : assim se designa vulgarmente nos meios católicos o pequeno barrete („pileolus“) que os bispos colocam sobre a sua cabeça, semelhante à „kippa“ dos judeus. Não se tira diante de ninguém ninguém, e quer significar que só a Deus se presta glória, porque só Ele é Senhor.

No Povo de Deus somos todos filhos do mesmo Pai – diz a primeira leitura –
isto é, a fraternidade é um mandamento fundamental
– e a igualdade na dignidade de todos os filhos de Deus
é um princípio constitutivo deste Povo de Deus.

„Não temos todos nós um só Pai?
Não foi o mesmo Deus que nos criou?
Então porque somos desleais uns para com os outros,
profanando a aliança dos nossos pais?“
– assim reflecte o profeta Malaquias este princípio fundamental da nossa fé: „Só Deus é Senhor“, só Ele é Pastor das nossas vidas, só a Ele devemos glória e obediência de consciência.

No início do Concílio Vaticano II, havia um projecto para um documento sobre a Igreja estruturado a partir do princípio hierárquico: começando pelo Papa e terminando nos leigos. Um bom grupo de padres do Concílio – apoiado por brilhantes teólogos – recusaram-se a entrar nesse esquema e exigiram um documento de trabalho que partisse da categoria de Povo de Deus e, nela, da igual dignidade de todos os seus membros. Esta iniciativa prevaleceu… a Lumen Gentium surgiu e foi aprovada…  O Espírito fez-se vento e o barca de Pedro andou em frente…

Só os anos do pós-concílio vieram mostrar que esta nova perspectiva teológica demora a passar à prática. A resistência é grande, como se mostra nas actuais tensões à volta do Papa Francisco. A resistência à mudança organiza-se. Continua a haver „senhores“ e arrogância de senhores dentro desta Igreja de irmãos e irmãs. Continuam a excluir-se as mulheres dos ministérios ordenados…

Malaquias não pode ser mais claro: a fraternidade / irmandade é um princípio absoluto neste Povo que se diz Povo de Deus.

 

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Deus surpreende

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A propósito do texto de Isaías 45,1.4-6, proposto como 1ª leitura para este 29º domingo comum A.  Leia antes o texto bíblico!

Se o texto do Deutero-Isaías que ouvimos neste domingo fosse traduzido à letra, havíamos de ficar supreendidos que o profeta não hesitou a atribuir a Ciro, rei da pérsia, o título de Messias, de „Cristo“.  Um senhor deste mundo, vitorioso e vencedor à força das armas, que nem sequer conhece o Deus de Israel („o único Senhor“), recebe o título de „messias de Deus“.
Nesta perspectiva,  Ciro tem a unção de Deus e a sua bênção para “baralhar as cartas” da história e da política de toda a região, de forma a poder realizar, mesmo sem o saber,  os planos de JaHWeH, que tudo faz para libertar o seu povo do exílio de Babilónia.  Deus está ao lado de quem faz avançar a história, no sentido de mais liberdade, de mais justiça, de mais fraternidade.  Assim a fé lê a história: é Deus quem abre as portas a Ciro, é JaHWeH quem está por detrás dos seus sucessos… É assim que Ciro liberta Israel do exílio (por volta de 539 aC) sem ver o alcance histórico-salvífico da sua decisão. É assim que sem o saber, é proclamado „Messias“ de Deus!

Estar atentos e saber ler os sinais dos tempos é um dos desafios que o Concílio Vaticano II lança aos cristãos. Ler a história e os acontecimentos para poder descobrir neles o „dedo“ de Deus, este Deus que escreve direito por linhas tortas; este Deus que pelo seu Espírito intervém e age onde menos se esperava e em moldes que não são os „habituais“ e assim nos surpreende… Estar atentos, saber discernir e assim podermos alegrar-nos com a Sua presença no mundo, cooperar com ela…

Deus actua em nós e no mundo de forma surpreendente. Pode ser que os melhores colaboradores deste Deus-único-Senhor-da-história venham de onde menos o esperamos: não das sacristias mas das periferias; não da classe sacerdotal mas dos muitos samaritanos sem nome que percorrem os caminhos de Jerusalém para Jericó; não dos que dizem „Senhor! Senhor!“ mas dos que fazem avançar o Reino de Deus fazendo avançar realmente a construção do mundo.

Deus surpreende. Deixemo-nos surpreender!

Se quiser também pode ler o comentário ao evangelho deste 29º domingo comum, disponível aqui neste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/10/18/a-deus-o-que-e-de-deus-a-cesar-o-que-e-de-cesar/

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O Deus de todos os povos convida para o banquete universal

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A propósito do texto proposto como primeira leitura deste domingo (15.10.2017), XXVIII domingo comum A: Isaías 25,6-10a

Há ideias que em determinada época da história se impõem e acabam por determinar o curso da história que se lhe segue. Foi assim na política, na filosofia, na ética, e na história das religiões.

A ideia de que Deus perdeu a paciência com o Povo de Israel e por isso lhe retirou a aliança e a eleição para as conceder aos cristãos foi uma delas (ver a leitura do evangelho do domingo passado, XXVII Comum, Mateus 21,33-43). As  consequências desta ideia foram desastrosas: o Povo de Israel passou a ser olhado sem respeito, como um projecto  falhado, ultrapassado e desnecessário (como se Deus pudesse falhar nos seus projectos…). Daí à perseguição directa dos “judeus” não faltou muito.  E foi assim que os cristãos deram um triste contributo para todo esse anti-semitismo que atingiria o ponto mais alto na tragédia da Shoah, o holocausto do povo judeu no altar do nazismo.

Outro lugar-comum da teologia cristã tradicional é a contraposição entre o suposto nacionalismo fechado do povo judeu e o universalismo aberto dos cristãos. O concílio de Jerusalém é muitas vezes sobre-valorizado. Ali foi decidida a abertura do Evangelho aos “pagãos” defendida por Paulo em  oposição a um grupo de “judeo-cristãos” à volta de Tiago menor e de Pedro. Segundo esta interpretação, o povo judeu ter-se-ia fechado sobre si mesmo e teria esquecido a sua missão no meio dos povos .  A leitura de Isaías para este domingo (Is 25,6-10a) vem mostrar como estas ideias-“cliché” são falsas, por serem “apenas” meias verdades. É verdade que havia em Israel um nacionalismo latente à mistura com muita abertura universalista. Mas, apesar de todas as dificuldades que este pequeno povo de Israel tinha com os povos vizinhos e os “seus deuses”,  JaHWeH era, em Israel,  visto e louvado cada vez mais como o Deus de todos os povos.

Isaías anuncia que o Deus de Israel irá preparar um banquete para todos os povos, irá tirar o v«eu que cobre todos os povos, o pano que encobria todas as nações, irá enxugar as lágrimas de todas as faces.  A repetição da palavra “todos” revela a mensagem central deste belo texto:  é uma mensagem de salvação com alcance universal, aberta a todos os povos, de alcance global, incompatível com todo o particularismo nacionalista. Estamos no sec. VII – VIII antes de Cristo e antes que  Paulo escrevesse as famosas palavras que hoje nos saem dos lábios como um credo da novidade cristã: “Não há judeu nem grego não há escravo nem livre não há homem nem mulher, todos somos um em Cristo Jesus” (Gal 3,26) !

Com a diáspora judaica, a partir do sec III aC, divulgava-se por toda a bacia mediterrânica, a fé bíblica no Deus único e vivo, que, no mundo politeísta greco-romano, fazia a diferença e preparava a chegada do cristianismo. Havia muitos prosélitos que se interessavam por este “Deus” e queriam conhecê-lo melhor.  Havia um convite implícito a fazer-se “peregrino” de Jerusalém, a subir esse “monte” para o qual Deus convidava todos os povos.
O convite ao banquete de todos os povos passou depois a ser o centro da mensagem cristã. Infelizmente a separação e o conflito entre a Igreja e a Sinagoga fez com que os mal-entendidos prevalecessem sobre a cooperação fraterna entre um “irmão mais velho” e um “mais novo”. A supremacia do cristianismo a partir do momento em que este se tornou religião imperial (sec IV) obrigou os judeus a fechar-se para se proteger.  Os cristãos voltaram-se para a cristianização dos povos pagãos. Havia baptismos em massa, às vezes forçados. Aconteceu cristianização… mas será que acontecia este banquete de todos os povos anunciado por Isaías como visão para os tempos messiânicos?! Parece-me que não.  A visão de um banquete universal e sem exclusões continua a ser, para todos os que nele acreditam – e eu conto-me entre esses – uma utopia desejada.  Reino de Deus, chamar-lhe-ia Jesus. Uma realidade “já” presente mas “ainda não” realizada que  solicita empenhamento de quem nela acredita.

jn

 

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Uma vinha e um poema de amor

Vinha na Bergstrasse

A propósito do texto de Isaías 5,1-7, proposto como 1ª leitura para domingo 8.10.2017, 27º domingo comum A. Não deixe de ler o texto bíblico!

Num poema de amor mais que as palavras são as emoções,  as imagens, as metáforas…

O poema de amor de Deus com o Seu povo manifesta-se na Bíblia em emoções que podem parecer contradizer-se: Deus, pela boca dos seus profetas, tanto ameaça  com destruição radical como se „contradiz“ com a promessa de salvação sem condições.
Uma das imagens mais expressivas deste poema é a imagem da vinha, que este texto de Isaías tão bem trata.
Quem nasceu em terra de vinho sabe bem quanto trabalho a vinha pede em todas as fases, com quanta atenção é necessário acompanhar o desenrolar do ciclo de produção, do cavar da vinha à colheita, quanto carinho se esconde atrás de cada vindima…

Isaías coloca Deus na figura do proprietário  de uma vinha. E a vinha é a imagem do Povo de Israel, esse povo que Deus plantou e não cessa de cuidar, mas que tanto desiludiu e decepcionou o seu Deus.

Quando a vinha tratada com tanto mimo, não dá uvas mas “agraços”… a decepção é compreensível. Quando este Deus espera de Israel a prática exemplar da justiça e da fraternidade e em vez disso o que „recebeu“ foi a injustiça e a exploração dos pobres, cujos gritos Deus não pode deixar de ouvir… que vai Ele fazer?

Israel é, na Bíblia, uma parábola da humanidade. A parte pelo todo. Num mundo com tantos recursos, onde poderíamos esperar solidariedade e partilha, direito e justiça, respeito pelos direitos humanos… e o que vemos cada vez mais é a globalização da indiferença, a desigualdade crescente, a exploração dos pobres, a destruição do meio ambiente, guerras e conflitos generalizados…  Que fazer? Ainda há lugar para a esperança? Ainda se pode fazer algo de novo?

No poema da vinha deste texto de Isaías, o proprietário como que ameaça a vinha com o abandono total. Qual amor decepcionado que pode chegar a traduzir-se em raiva e em manifestações de fúria… Mas o poema de amor de Deus com a humanidade não termina aqui. Passada a decepção, o Deus que já tanto “investiu” na humanidade vai voltar a trabalhar a vinha. O namorado apaixonado não desiste daquela que ama.

Deus não desiste nem de Israel, nem da Igreja nem da humanidade.  O senhor da vinha não deixará a vinha ao abandono… O amor continua à espera de amor.  O poema  de amor continua… ainda não está escrito até ao fim. De nós, cada um por si e das nossas comunidades, depende o desfecho da parábola da vinha: uvas ou agraços?

Jn
02.10.2017

 

 

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Assumir hoje a „defesa“ de Deus?

A propósito do texto de Ezequiel 18,25-28, proposto como 1ª leitura para este domingo, 1.10.2017, XXVI domingo comum A.   Antes de ler esta reflexão, leia o texto bíblico, por exemplo em http://www.evangeliumtagfuertag.org

Posso bem imaginar a situação de Ezequiel: no exílio de Babilónia (ele estava entre os deportados  da primeira leva), o profeta não pára de ouvir desabafos deste género: afinal, onde está Deus? Porque é que somos castigados desta maneira, nós que acreditamos nEle? Estamos a pagar pelo pecados dos outros: Que justiça é essa?! “os pais comeram as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados”, criticavam (Ez 18,2).

Assumindo a defesa de Deus, com quem se sente comprometido, Ezequiel avança com uma nova compreensão do sofrimento inexplicável:  se estamos a sofrer, é que certamente pecámos pessoalmente, mesmo se não ousamos confessá-lo. Só pode ser assim, Deus é justo. Para Ezequiel, a relação entre pecado e castigo é sempre individual. O justo viverá, o pecador morrerá…

A explicação de Ezequiel parece clara, mas estou convencido de que não respondeu às dúvidas de todos os que o ouviam.  Muitos continuariam a interrogar o profeta e a questionar o Deus da sua fé, porque não encontravam na sua vida pecado que tivesse merecido aquela situação como castigo.

O tema do sofrimento do justo continuará a ocupar os profetas e os crentes de Israel. Job é uma testemunha disso. O sofrimento do servo de JaHVeH em Isaías levanta questões sem resposta. Jesus também teve de reflectir sobre o tema. Quando perante um  cego de nascença, os discípulos o interrogaram  – “Mestre quem pecou, ele ou seus pais?” – Jesus mais não podia que dizer: nem ele nem seus pais… (cf João 9 )

O mistério do sofrimento e morte do justo e do inocente atingiu o cume dramático na morte de Jesus. Como explicar? Como conciliar o sofrimento do inocente com a bondade e a justiça de Deus? A teodiceia cristã ao longo dos últimos vinte séculos não encontrou respostas convincentes.  Uma coisa me parece clara na explicação de Ezequiel: ninguém tem de temer castigos colectivos vindos da parte de Deus. Ele olha ao que vai no coração de cada um, pessoalmente. Ele vai além de todas as aparências (distingue entre o acreditar com os lábios e com a vida – ver o Evangelho deste domingo). E o Seu amor não se cansará de dar uma nova chance a uns e a outros: aos que dizem “amen” mas não cumprem, e aos que parecem indiferentes ou  mesmo  do „não” (pecadores) e depois acabam por dizer “sim” ao amor de Deus.  Sempre na defesa de Deus, Ezequiel irá aliás mudar de perspectiva: ao ver chegar nova leva de inocentes, deportados de Jerusalém, Ezequiel passa a anunciar a esperança: Deus fará reviver o seu Povo! esse povo reduzido a esqueletos (cf Ez 37) pode ter esperança!. Deus fará brotar de Jerusalém e do seu templo (na altura, monte de escombros) água que dará vida nova ao deserto e ao mar morto.. (cf Ez 40). Com este novo anúncio, positivo, esperançoso, creio que a fé dos deportados reviveceu….  a melhor defesa de Deus e da fé é o anúncio da esperança, a confiança no Seu amor!

Jn
29.09.2017

“É por nossa causa que Deus tem de percorrer um caminho tão longo para vir até nós.
O amor é proporcional à distância” (Simone Weil)

 

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