Escutar o coração

De todas as mensagens de Natal que nos chegam estes dias, apreciei de modo especial as palavras do Presidente da República Federal da Alemanha, Joachim Gauck, sobretudo quando se refere ao modo como a sociedade (alemã) acolhe os refugiados. Atrevo-me a citar:

„Não façamos pequeno o nosso coração, com a verificação de que não podemos receber no nosso país todos os que chegam. Eu bem sei que esta é uma afirmação muito, muito acertada. Mas verdadeira ela apenas se torna quando tivermos consultado o nosso coração, ouvir o que ele nos diz quando vemos as imagens de feridos e perseguidos. Será que já fazemos tudo o que podemos?“
(Joachim Gauck, Mensagem de Natal 2013).

Parecem-me palavras dignas de ser duplamente sublinhadas: primeiro porque Gauck usa uma linguagem pouco comum para um político, ao fazer do coração uma instância da verdade, a consultar obrigatoriamente quando nos abrimos ou nos fechamos ao Outro, ao diferente, ao refugiado… Não será que estamos a estreitar demasiado o nosso coração quando nos deixamos mover apenas por razões “razoáveis”, politicamente correctas, mesmo aparentemente sensatas como sejam as razões de estado?!

Segundo, de sublinhar pelo seu conteúdo: a constatação de que nosso coração se deixa “mover” pelas pessoas mais do que pelos números. Antes de ser um número, mais um entre muitos milhares e milhões, o número x numa estatística facilmente manipulável, o refugiado é uma pessoa, tem um rosto, tem uma história, tem uma biografia. E quando nos pomos e olhar para esse rosto com os olhos do coração, descobrimos o sofrimento que o marca; quando nos pomos a escutar histórias e biografias de refugiados que deixam o seu país para fugir ao “inferno”, à procura do mínimo de dignidade, não podemos impedir o nosso coração de entrar numa dinãmica de “compaixão” (J.-B. Metz), e daremos connosco a perguntar-nos como se pergunta o Presidente Gauck: “Será que já estamos a fazer tudo o que podemos?!”
A resposta é remetida a cada um de nós, em primeiro lugar, e depois à sociedade civil, mas, de forma directa à classe política, aos que governam a todos os níveis – de Berlim até à mais pequena das autarquias – e à oposição.
Vamos a ver se o novo ano traz respostas…

Feliz Natal !

Jn

Advertisements

Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
Dieser Beitrag wurde unter actualidade, migrações abgelegt und mit , , verschlagwortet. Setze ein Lesezeichen auf den Permalink.

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden / Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden / Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden / Ändern )

Google+ Foto

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden / Ändern )

Verbinde mit %s