Um testemunho de humildade e de coragem

A propósito da publicação dos resultados do inquérito sobre a doutrina e a pastoral familiar, na preparação do Sínodo dos Bispos.

Os bispos alemães acabam de publicar uma visão de conjunto das respostas dadas ao questionário de preparação para o Sínodo dos Bispos sobre a Família. Muitos milhares de pessoas, a título individual e em grupos ou comissões consultivas, responderam a este questionário. Vale a pena recolher os pontos principais desta visão de conjunto.

1. Os leigos – embora não estejam habituados a este tipo de participação aberta nas reflexões e decisões da hierarquia da Igreja – participaram: souberam apreciar e levaram a sério esta oportunidade. O efeito surpresa e os prazos a respeitar limitaram ou impediram mesmo a participação de muitos, mas, mesmo assim, foram ainda muitos os que se alegraram com este novo espírito de diálogo reinante na Igreja. O resumo das tomadas de posição abrange mais de 1000 páginas. Os bispos alemães reconhecem e agradecem a participação.

2. „Die meisten Gläubigen bringen mit der Kirche einerseits eine familienfreundliche Haltung, andererseits eine lebensferne Sexualmoral in Verbindung“. Em português: „A maioria dos fiéis relaciona com a Igreja de um lado uma atitude favorável à família, do outro lado uma moral sexual distante da vida”, comentam os bispos. A linguagem e o estilo autorativo dos documentos da Igreja nesta matéria não despertam o interesse dos fiéis.

3. Há temas em que a visão da Igreja (leia-se: da hierarquia) e a posição dos cristãos que fazem “diariamente” a experiência da vida em casal ou em família coincidem em grande parte: o valor da família, a importância da comunicação e do diálogo no casal, os valores fundamentais da educação dos filhos. Nestes pontos as respostas dadas atestam à Igreja uma competência reconhecida.

4. Mas há também muitos outros temas em que as posições da hierarquia e as do comum dos fiéis se afastam de forma irreconciliável. É o caso de temas como: coabitação e coabitação sexual antes do casamento; o uso de preservativos e outros métodos de controle de natalidade; a homosexualidade; situação dos divorciados que se voltam a casar. A divergência é inegável. Uma grande maioria dos católicos não compreende nem aceita as posições oficiais da Igreja sobre estes temas.

5. Se dentro da Igreja se pode falar já de divergência acentuada, fora dos meios eclesiais, na sociedade secularizada, as posições da Igreja sobre família e sexualidade são vistas como um catálogo de proibições, sem qualquer correspondência com as realidades da vida.

6. A Igreja fala, neste campo, uma linguagem que mais ninguém usa e poucos compreendem. Nas respostas que os bispos avaliaram, puderam verificar que os cristãos, e mais ainda a sociedade, não entende o que significa “direito natural”, ou “normal” e “regular”. Porquê a Igreja continua fixada em categorias biologistas, em vez de tentar compreender os problemas e sofrimentos das pessoas? Referindo-se aos católicos que em termos de vida matrimonial vivem situações “irregulares” (questão 4 d: “como é que os católicos vivem essas situações irregulares?”), o relatório da conferência epicopal comenta: “Os baptizados não encaram a sua situação como irregular. A distinção entre „regular“ e „irregular“ são explicitamente rejeitadas pelas pessoas em tais situações, porque as consideram discriminatórias para com as famílias que vivem confrontadas com situações de vida difíceis”.

7. Uma frase dura, mas bem observada: “São muitas as pessoas que não querem ter mais nada a haver com uma instituição, de quem elas fazem a experiência da rejeição”.

O relatório da conferência episcopal, a apreciação que fazem às respostas dos “fiéis”, é uma declaração de humildade e um testemunho de coragem. Oxalá seja também o primeiro passo de um processo de abertura de uma Igreja que quer passar a orientar-se mais pelo Evangelho do que pelo direito canônico.

jn

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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