SAL e LUZ, maneira de estar e tarefa

Comentário ao evangelho do 5º domingo comum A (Mt 5,13-16):
Leia, antes de continuar, o texto bíblico em http://www.evangeliumtagfuertag.org

“Vois sois o sal da terra”: um elogio ou uma tarefa?

Com esta palavra Jesus aponta aos discípulos uma maneira de estar no mundo e uma tarefa nesse mesmo mundo.

Um modo de estar no mundo: como o sal na comida. Estar no mundo como sal: de tal modo “dissolvido” e “comprometido” com a vida deste mundo, que não podemos ficar de fora, nem mesmo pela preocupação legítima de “perservar” a própria identidade. Um texto dos primeiros séculos do cristianismo (a Carta a Diogneto, sec. II), exprime-o assim: “Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular” .

E um texto dos mais importantes do cristianismo contemporâneo, a Gaudium et Spes (do Concílio Vaticano II), exprime assim este “envolvimento” dos cristãos no meio do mundo para aí estar como o sal na comida:
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS1).

Estar no mundo, não com a preocupação de trazer o mundo para a Igreja (assim era e é a mentalidade “pre-conciliar”), mas com a preocupação de o transformar por dentro, dando-lhe o sabor do Evangelho. Dar ao mundo, à vida das pessoas no seu conjunto e de cada pessoa o “bom sabor” que Deus quis e quer para as suas criaturas. Estar no mundo, sem preocupações de ser ou não ser notado, de ser ou não ser “visto”. Só pode ser visto o que se põe de lado ou de fora. É a vida do mundo e a vida das pessoas que está em causa. É a comida que alimenta, não é o sal. Mas o sal torna mais apetitosa a comida que alimenta. E viver torna-se mais que trabalhar para comer e comer para subsistir; torna-se festa dos sabores, alegria de viver.

Vós sois a luz do mundo: um elogio ou uma tarefa?

Durante muitos séculos a Igreja compreendeu-se como sociedade perfeita a brilhar como brilhava a talha dourada nas igrejas barrocas. O Concílio Vaticano II veio corrigir esta visão, ao lembrar que a Luz dos Povos é Cristo, e que a Igreja e os discípulos de Cristo mais não têm que reflectir esta luz no mundo à sua volta, conscientes de que são luz mas não são a fonte da Luz. Alguns teólogos antigos comparavam a Igreja à Lua: ela ilumina com o luar, mas o luar é luz reflectida. Luz, Fonte de Luz, é o próprio Deus. E desta Luz aconteceu e acontece a criação.

Aquilo que vale para a Igreja, vale para mim, como cristão. Sou chamado a ser reflector da Luz de Deus, neste mundo onde ainda reina tanta escuridão. E , mais do que com as minhas palavras, serei luz com as minhas atitudes e tomadas de posição, com a minha vida, ou, como diz o texto do Evangelho, “com as minhas boas obras”, que levam as pessoas a louvar a Deus…
O profeta Isaías (no texto da primeira leitura) diz muito bem:
“Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia” (Is 58, ).

Ser sal da Terra, ser luz do mundo: uma maneira de estar no mundo e uma tarefa! Um compromisso com o Evangelho e com o Mundo, ao qual ele se destina. Uma fidelidade a Deus, que nos „envolve“, e ao Mundo, que Ele ama.

Jn

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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