Quando os muros caem…

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Vivi mais de um ano em Berlim, no início dos anos 80. Uma cidade espartilhada, como todo o mundo a imaginava, na divisão entre dois países, entre dois blocos, dois sistemas. Mas também uma cidade rodeada de um muro, que a enclausurava e isolava como uma ilha. Por isso, compreendi bem a alegria indescritível que se espelhava nos rostos dos berlineses que, de repente, podiam passar de um lado ao outro, nos dois sentidos, e se abraçavam, numa emoção de quem há muito tempo esperava o momento de se poder assim abraçar, sem requerimentos, controlos nem limites.

O muro de Berlim foi derrubado. Mas não tardou a notar-se que não havia só muros de betão ou de arame farpado a dividir este país. Havia muros na cabeça. Havia muros ideológicos. Havia muros de preconceitos e de ressentimentos. E estes mostraram-se difíceis de derrubar. Alguns persistem, renitentes.

25 anos passados sobre a queda do muro mais famoso da história contemporânea, deparamo-nos com novos muros que se erguem ou já estão erguidos e se reforçam cada vez mais. Vejamos alguns:

– Um muro feito de todo o tipo de barreiras ergue-se nas fronteiras externas da Europa. Em Melilla e Ceuta, são metros e metros de rede e arame farpado. Trata-se de defender a Europa da “invasão” dos pobres e refugiados de todo o mundo, que aqui procuram segurança e sobrevivência. Para defender a nossa riqueza e bem-estar, rodeamo-nos de novos muros…

– Um muro, o mais longo do planeta, separa os Estados Unidos da América do seu vizinho a sul, o México, para impedir que os “latinos”, os pobres da América Central e do Sul, venham requerer a parte do bolo da prosperidade que uns adquiriram à custa do empobrecimento dos outros.

– Um muro separa dois povos, condenados a partilhar a mesma terra e dividir a mesma água, mas que não conseguem comunicar construtivamente tão diferentes são as linguagens e os interesses. Israel e Palestina: quando será a sua vez de verem o muro cair e de palestinianos e judeus se encontrarem a abraçarem nos campos de oliveiras e de laranjeiras hoje, devido a esse mesmo muro, sem acesso para quem os quer cultivar?

– Um muro separa cada vez mais os que, nas nossas cidades, vivem no luxo e na abundância e os que se encontram diariamente para tomar a sopa dos pobres, organizada por voluntários empenhados, mas, ao mesmo tempo, impotentes no que diz respeito às condições estruturais que dão origem ao muro que cada vez se nota mais?

Oxalá sejamos muitos a gritar contra todos os muros do mundo, como gritaram na altura os manifestantes da antiga RDA: “Die Mauer muss weg!” – O muro tem de cair!
Se for um só a gritar, vai para a prisão ou para a psiquiatria. Se formos muitos e muitos, os muros hão-de cair mesmo!

Jn
09.11.2014

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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