A Deus nada é impossível

Em Lucas 1,26-38, o cenário é mais que cenário, é mensagem. O contexto é mais que contexto, é texto.

Cenário e contexto é a Galileia da gente “pequena”, humilde, sem nome… A Galileia dos pobres, dos pequenos camponeses a lutar diariamente pela sobrevivência, pelo pão nosso de cada dia… A Galileia dos “gentios”, região de encontro entre judeus e não-judeus, mal vista pela classe religiosa de Jerusalém, pela sua distância emocional, mais que geográfica… Mas, pobres que eram, os galileus esperavam, mais que muitos outros, a chegada do Messias, esse que viria trazer a salvação anunciada pelos profetas, uma vida baseada no direito e na justiça.

Na Galileia, um pequeno povoado, que Lucas identifica como Nazaré. “Nazaré? Onde é que isso fica?”, perguntaria um habitante de Jerusalém. Sim, a Nazaré sem nome, sem uma única referência na longa história deste Povo,passada a texto nos livros históricos e proféticos de Israel, quanto mais na história geral dos povos da região. Nazaré, pequeno povo sem nome, será que dele pode sair alguém ou algo de importante (ver Jo. 1,46 )?

Em Nazaré, uma jovem mulher, de nome Miriam, como muitas outras Miriam haveria, nome de honra à Miriam irmã de Aaron, a primeira cantora da libertação (ver Ex 15,20 ). Uma jovem preparada para seguir pelos caminhos por que seguiam todas as mulheres judias daquela altura, aliás não muito diferente do comum de todas as mulheres em todos os povos do mundo: constituir família, “dar filhos” ao marido e ao seu povo, cuidar deles e fazê-los crescer, ser responsável pela vida de casa e pelos muitos encargos a ela ligados, como lavar roupa ou fazer pão…

E como todas as “Miriam”, dessas que frequentavam a sinagoga e conheciam o sonho de Deus para Israel e para o mundo, esta Miriam tinha também o seu sonho pessoal: noiva de um jovem da aldeia, de nome José, um com uma profissão de prestígio (carpinteiro) e com uma família de boas origens em Belém da Judeia, preparava o casamento, juntava as peças do enxoval, fazia planos, tanto quanto a vida de um pobre pode ser planeada. O mais da vida de um pobre já está determinado pelas condições em que nasce e pelo meio em que vive.

E foi mesmo a esta Miriam, Miriam sem mais, sem família de boas origens nem referências sociais, que Deus se dirigiu com um convite. Apresentou-se como sendo Deus Altíssimo, a “descer” bem “baixo”, ao meio do seu povo, como outrora através de Moisés, para o libertar de toda a forma de servidão.
E servidão era o que mais se sentia. De um lado, a servidão imposta pelos poderes políticos, nominalmente localizados em Roma, mas realmente presentes no local, com os seus reis-marioneta, com os seus cobradores de impostos, chamados Mateus, Zaqueu ou outra coisa parecida, com os seus soldados.
Do outro, a opressão das leis e estruturas religiosas, que, servindo-se do Nome de Deus, controlavam a partir do Templo a vida dos pobres até ao pormenor e “ameaçavam” quem não conseguia “cumprir” com a maior das penas que então se conhecia: a exclusão da comunidade dos crentes.

E o convite deste Deus de salvação era simples: “conceberás e darás à luz um filho” (até aqui nada de novo, apenas boa nova para todas as mulheres!), e esse Filho viria para fazer sua a causa de Deus, à maneira do servo de Jahve de que falava o profeta, e tornar visível uma presença de Deus no meio do seu povo como nunca tinha acontecido nem viria a acontecer, nos traços da perspectiva messiânica que animava o Povo desde o grande Rei David, mas que ultrapassaria todas as expectativas e todas as esperas…

E se simples era o convite, difícil era a resposta: “Como pode ser isso?!”. Mas Deus não  desiste diante das dificuldades humanas: A Ele nada é impossível. O Seu Espírito não deixa de actuar até que se cumpra a salvação. E, porque Miriam acreditava nesse Deus a quem nada é impossível, ofereceu-se para o servir e amar, numa disponibilidade radical que, num simples SIM,  fez avançar milhões de anos a humanidade por este caminho que o Criador tinha planeado para ela.

E a Galileia de má fama vai ser berço do Evangelho. Nazaré sem nome passa a ter o seu nome ligado a Jesus de Nazaré. E da humanidade simples em que ninguém acreditava saiu a Mãe d`Aquele que fez pessoal, visível, palpável, a presença de Deus no meio do mundo. A Deus nada é impossível.

Jn
21.12.2014
Quarto domingo do advento

Advertisements

Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
Dieser Beitrag wurde unter evangelho abgelegt und mit , , , , verschlagwortet. Setze ein Lesezeichen auf den Permalink.

Eine Antwort zu A Deus nada é impossível

  1. Pingback: Advento com Natal à vista | palavras poemas procuras

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden /  Ändern )

Google+ Foto

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden /  Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden /  Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden /  Ändern )

w

Verbinde mit %s