Deus de todos os povos

Leia antes o texto de Mateus  2,1-11, por exemplo em http://www.evangeliumtagfuertag.org

Esta maravilhosa narração do Evangelho de Mateus, exclusiva dele, fascina-nos desde crianças. De facto ela tem tudo o que é preciso para despertar a fantasia e o sonho, como um conto. Mas Mateus convida-nos a ir mais longe e a ler a sua narração à luz da tradição profética de Israel e das esperanças messiânicas que nela se encerram.
Ao lê-la hoje de novo, ela suscita em mim algumas reflexões, que partilho:

– São “de fora” estes magos, do Oriente pagão, onde não se conhece o Deus das Escrituras, o Deus revelado a Israel, mas apenas os sinais divinos na criação. E eles procuram o lugar que não conhecem, para adorar o Deus que neles semeou esta inquietação e cujo nome não sabem pronunciar. Enquanto que outros, que se têm por fiéis, conhecedores da Escritura, sabem o lugar, mas não “se metem a caminho” para adorar.

– Os magos seguem a “Estrela”. Têm os olhos colocados no céu, símbolo de uma procura  sem limites, desafio de infinito na imensidão do universo. E deixam-se guiar.  Pela sua sede e pela „Estrela“.  A sede: essa que Deus colocou em cada ser humano, sede de verdade, de justiça, de amor, de felicidade.  A “Estrela” que Deus colocou no mundo é, para nós cristãos, Jesus Cristo. Mas deixemos que, por ora, outros lhe chamem apenas estrela. Importante é que muitos descubram o caminho que conduz a Deus.

– Da casa de David – de Belém da Judeia – viria a salvação, diz a Escritura,  mas uma salvação que de modo nenhum se restringia a Israel, antes se devia revelar, estender, irradiar a todos os povos. Isaías e os profetas anunciaram-no sem ambiguidades, remando contra uma visão „nacional“ da salvação.

– O bloqueio de Herodes é o seu medo de partilhar o poder. Ou o medo de um poder totalmente diferente, de um „Rei outro“, mais do que de um outro rei. O medo de um poder que, sem ser concorrente ao seu, viesse por em causa o “poder”, todo o poder, de forma radical. É o medo de alguém que viria mostrar a primazia do servir, em vez de mandar, do dar a vida, em vez de explorar e possuir.

– Os cristãos celebram nesta festa a revelação da salvação de Deus a todos os povos. A arte deu há muito um rosto diferente a cada um dos três magos do oriente, para simbolizar, na cor da pele, a diversidade dos povos e culturas. A abertura do Evangelho a todos os povos nem sempre foi bem conseguida, ao longo dos séculos. E continua a não ser fácil, hoje, apesar da nossa consciência da tensão a salvaguardar entre um mundo global e uma vivência local, entre a comunidade e o indivíduo.

Se, em vez de ajudarmos as pessoas a descobrir a salvação de Deus, propusermos antes uma pertença à Igreja, “fora da qual não há salvação”, estamos a deturpar esta abertura universal do amor de Deus. A Igreja vem depois, reunindo os que a descobrem.

Se, em vez de Evangelho, – compreendido como Boa nova do amor de Deus e da fraternidade/irmandade radical de todos na relação com esse Deus – „oferecermos“ moral e direito canónico, estamos a impedir a abertura das pessoas, na sua diversidade cultural e complexidade biográfica. Deus dá-se de graça e sem condições.

Se, em vez de diversidade e alegria pela diferença, continuarmos a exigir uniformidade (mesmo que intitulada de unidade), que a todos trava e desrespeita, estaremos a impedir a procura dos “magos” de hoje, que,  guiados pelo Espírito,  procuram e se interrogam, até se metem a caminho,  mas não querem deixar-se apanhar pelas estruturas apertadas.

Os magos fizeram-se ao caminho, procuraram, tactearam, vieram, adoraram a Deus e voltaram às suas terras cheios de alegria, seguindo caminhos novos. Mateus não quer saber se eles se “converteram” ou não. Apenas regista a sua alegria por terem feito a expriência da abertura universal da salvação de Deus e a sua disponibilidade para colaborar, voltando por outro caminho !

Jn
04.01.2015
Festa da Epifania

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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