Quando Jesus diz „Eu sou“

A propósito do texto do evangelho proposto para este domingo, 19º comum B: João: João6,41-51. Leia antes o texto bíblico, por exemplo em http://www.evangeliumtagfuertag.org

As imagens “selfie” estão na moda: de braço estendido e “smartphone” na mão toda a gente faz uma foto de si mesmo para enviar aos amigos, ou colocando-a mesmo à disposição do mundo inteiro nas redes sociais de comunicação. Auto-imagens! Auto-revelações!

Na cristologia do evangelho de João predominam as auto-revelações de Jesus. Jesus revela-se a si mesmo com afirmações na primeira pessoa do verbo ser: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, “Eu sou o bom pastor”, “Eu sou a Luz do Mundo”, “Eu sou o Pão da Vida”… E, tal como no texto proposto para este domingo, Jesus, ao fazê-lo, tem de confrontar-se com a rejeição dos seus ouvintes, crentes do judaísmo, que ao ouvirem este “Eu sou” não podiam deixar de escutar a referência ao nome de Deus – Jahweh – tal como Ele mesmo se revelou a Moisés: “Eu sou Aquele que é”. Não admira que aos ouvidos dos seus contemporâneos estas auto-revelações soassem imediatamente a “falta de respeito”, denunciassem um ultrapassar de limites por parte de um profeta que, sendo embora visto como um homem de Deus, era da „nossa condição humana“: “Não é ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos nós o pai e a mãe dele?”

Na cristologia da segunda geração de cristãos, como é a do Evangelho de João, são colocadas na boca de Jesus palavras que só podem vir de Deus. À imagem de Cristo Ressuscitado são dadas pinceladas que denunciam a fé da comunidade na origem divina de Jesus de Nazaré, traduzida na expressão “filho de Deus”. As auto-revelações de Jesus, do tipo daquelas que o texto de João nos propõe – “Eu sou o Pão vivo que desceu dos céus” – testemunham acima de tudo o desenvolvimento da fé da comunidade cristã, a evolução cristológica do credo dos primeiros cristãos. O profeta de Nazaré, Jesus, filho de José e de Maria, é celebrado e adorado como o “Filho do Deus Vivo”. Torna-se objecto da fé. A “proximidade inultrapassável” de Jesus a Deus (K. Rahner) é traduzida cada vez mais pela divindade do próprio Jesus.

Tal como Jahweh se revela como Presença no meio do seu povo, ao lado da humanidade, ao lado de cada ser humano, para “ver”, “ouvir” e “conhecer” a vida, também Jesus se revela como o amigo da humanidade, Presença de Deus na história dos homens, Luz para toda a escuridão, Caminho para a procura de felicidade, Pão para as fomes do ser humano. Estas imagens não são auto-retratos de Jesus, “selfies”, mas sim manifestações da profissão da fé da Comunidade cristã. E as palavras que a Comunidade dos crentes coloca na boca de Jesus (“Eu sou o Pão vivo descido do céu”) podiam também ser formuladas assim: “Jesus, tu és para nós o Pão vivo descido do céu”.

Depois de uma longa história marcada pela formulação dogmática da fé, sentimos hoje cada vez mais a necessidade de articular a fé como expressão pessoal, tentativa sempre insegura mas confiante no intuito de dar resposta a essa pergunta de Jesus: “E vós quem dizeis que eu sou?!”.

Quem é Jesus, para mim? Que lugar ocupa Deus na minha vida? Como se manifesta em mim a fome e a sede de Deus? Que resposta lhe damos ou de onde nos virá a resposta? Chegaremos então a formulações de fé semelhantes ou próximas daquelas que nos aparecem no evangelho de João: “Tu és para mim o Pão que Deus enviou” para saciar a minha fome.

É neste contexto que compreendo o texto do evangelho de João que a liturgia propõe para este 19º domingo no tempo comum.

Jn
09.08.2015

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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