Sagrada Família: na procura do essencial

Ouvi esta manhã, na homilia da missa deste domingo depois do natal, dedicado à Sagrada Família, ideias muito claras acerca do mal-entendido que tantas vezes dominou (e porventura ainda domina) as catequeses e as pregações da Igreja quando a família é tema.O mal-entendido consiste a meu ver na „mistificação“ da família, como se „família“ por si fosse já equivalente a „salvação“, e a vida em família, só por si, o paraíso.

O pregador, um padre já de idade avançada, distinguia muito bem entre o amor – essencial comum a todas as formas de existência cristã – e os modelos de o concretizar.
Tomando como ponto de partida a carta de Paulo aos Colossenses (3,12-21) – que ele mesmo escolheu para este dia, ver texto ao fundo – ele distinguia, muito bem a meu ver, entre a primeira parte do texto (vv 12-17), em que Paulo desenvolve esta espiritualidade do “uns aos outros”, do “mutuamente”, e a segunda parte do texto, (vv 18-21) onde Paulo simplesmente defende uma (a sua) imagem concreta de família, como ela era idealmente concebida no seu tempo, uma imagem bem situada no tempo e na cultura, imagem que uma vez dogmatizada fez sofrer muita gente.

Contra todas as mistificações há que dizer que a Família de Nazaré é “sagrada”, é santa, não por ser família, mas por ser santa, isto é, por viver do amor de Deus que o próprio Cristo depois iria fazer centro da sua pregação. A santidade da família está na procura de formas de vida que tenham a ver com este amor, em que mutuamente todos são chamados a crescer e a realizar-se. Todos os modelos de família, mais tradicionais ou mais modernos, mais patriarcais ou mais matriarcais, mais autoritários ou mais anti-autoritários, têm de ser postos à prova a partir da observação que S. Lucas faz no seu evangelho a propósito da Família de Nazaré. Jesus crescia nela em „sabedoria, estatura e graça“.  Todos modelos de família têm de ser submetidos a esta questão: a família é espaço onde todos os seus membros „crescem“, e crescem em todas as dimensões do ser humano?

Para merecerem o título de „sagrado“, as famílias, qualquer que seja a sua matriz cultural de onde provêm e a espiritualidade por onde se orientam, são chamadas a concretizar o essencial: o amor “uns aos outros”, que, vindo de Deus e conduzindo-nos para Deus, é fonte de santidade!

Jn
27.12.2015
Festa da Sagrada Família

 

Da carta de Paulo aos Colossenses (cap 3)

12Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, 13suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. 14E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. 15Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos. 16A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados.
17E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai.

Novas relações no Senhor18*Esposas, sede submissas aos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as esposas e não vos exaspereis contra elas.
20Filhos, obedecei em tudo aos pais, porque isso é agradável no Senhor. 21Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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