Quando um ano está a terminar

Um ano a terminar, novo ano a começar.

Avançamos ao mudar de ano, ou voltamos ao mesmo? Há que esperar algo de “novo” do tempo que se diz novo, ou antes mais do mesmo, apenas com outra data, eventualmente noutro contexto, noutro lugar, à semelhança do que se passa na natureza em que as estações se sucedem e voltam de novo? Que é a história: um andar à volta, em movimento circular, mesmo que em espiral, ou um avanço linear, mesmo se lento e com altos-e-baixos?

Com estas duas visões da história vivemos desde a antiguidade. As civilizações assentes nas religiões míticas favoreciam a história como movimento circular. Os mitos propõem o regresso do passado glorioso, do momento fundacional… Neste mito do “eterno retorno”, o ser humano entende-se como dependente de um destino, em que o presente não é muito diferente do passado: encarcerado na roda da história como um amster, está condenado a agir, a fazer alguma coisa, porque só assim pode contribuir para que a roda se mova…. mas de novo, de realmente novo, não acontece nada. Fazer história é tentar conservar o presente o mais possível. Eternizar o “status quo”. Viver, a nível pessoal, é assumir a existência como parte do eterno retorno do universo, fazendo dele um ritual pessoal, a que, nalgumas religiões nem a morte põe fim: depois da morte, haverá reencarnação.

A Bíblia apresenta uma outra visão: a história como uma linha (se bem que não recta) que se traça à medida que o tempo passa, como um avançar (nem sempre sensível, de tão lento), para um futuro que é promessa, promessa que se cumprirá. Olhando para trás, percebem-se as etapas percorridas. Cada nova etapa tem a sua novidade, e a novidade pode ser dura, difícil de viver, mas tem de ser encarada como crise do passado e exigência de mudança. O messianismo bíblico implica a noção de futuro, e de um futuro-novidade, futuro-surpresa, que o presente prepara, mas não contém. O passado é objecto de leitura e re-leitura, e vale enquanto poço de promessas. Viver é saber-se herdeiro de um passado e testemunha de um futuro.

Estas duas visões da história convivem muitas vezes.

Nas instituições e estruturas, há as que são mais marcadas por uma que pela outra. Posturas conservadoras e reformistas. A Igreja, embora muitas vezes pregue diferente, foi protagonista de uma visão circular da história. Se teve de enfrentar os avanços da história foi a contragosto. Há 50 anos, no Concílio Vaticano II, a Igreja deixou uma visão circular da história, – cujo ritual ela administrava – e abria-se a esta visão de uma Igreja peregrina no tempo, caminhando com um mundo em mudança, sempre carenciada de reforma.

Também cada pessoa encara a vida e tem uma maneira de estar no mundo, onde se poderá ler a predominância de um ou de outro paradigma. Na passagem de ano, vale a pena parar para se perguntar qual é o paradigma que marca. E tirar as consequências para melhor viver.

Bom ano novo!
Jn

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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