Faz-me bem a primavera

Primavera_1    Faz-me bem a primavera. Saber que o dia é outra vez mais longo do que a noite. Sentir o sol que volta a ter força, para me aquecer o rosto, para esquentar o ar, o chão e a terra aberta para as sementeiras. Alegrar-me com as flores  e as folhas que brotam nas árvores até agora despidas… Faz-me bem a primavera!

E creio que não sou o único a quem a primavera faz bem. Muitas vezes se saúdam e cumprimentam os aniversariantes pelas “primaveras” contadas. Como se, no ciclo do nosso ano, nada contasse tanto como a primavera, este tempo de renascer, de recomeçar, que tem tanto de sensação física como de expressão poética. Contamos os nossos anos pelas “primaveras” para nos sentirmos mais jovens, todos “nascemos” na primavera, ninguém quer viver sem ela.

Na passagem do inverno à primavera há, na natureza, um processo de revigoração, de revitalização, de renascimento, que nos fascina. As grandes religiões propõem mesmo uma “espiritualidade de primavera”, convidando os humanos a imitar a natureza neste nascer de novo, tomando consciência das passagens que se declaram inadiáveis, das mudanças a que somos desafiados,  sempre que nos damos conta que chegou ao fim um ciclo da nossa vida e que só poderemos continuar a viver e a saborear a vida se houver “primavera”, se houver “passagem”, se houver “páscoa”.

Passagem: a palavra “páscoa” não quer dizer outra coisa. A experiência espiritual que nos é testemunhada na Bíblia, e que serve de fonte à páscoa de judeus e cristãos, é mais que uma afirmação de fé ou que um memorial de coisas passadas. Passando do mito para a história, a Bíblia convida-nos, faz-nos mesmo um desafio a fazer “páscoa” a nível pessoal e colectivo,  deixar que a Páscoa aconteça e mude a história, que haja “primavera” na vida de cada um de nós e na nossa sociedade. “Que nesta noite cada um se sinta entre aqueles que saem da terra da escravidão e passam para a liberdade”, recitam as famílias judaicas na abertura da sua festa pascal.  Unidos a Jesus, o Ressuscitado,  cada um de nós e todos “passamos da morte à vida” (S .Paulo).

Deixar que a Páscoa aconteça é convencer-se que não estamos condicionados por um destino, por um “fado”, que seria mais forte que tudo,  porque, andemos por onde andarmos, ninguém fugiria ao seu destino. Diz-se que os portugueses, mais que outros povos, são fatalistas, acreditam no poder do “fado”, cantando até o fado de uma vida que há que aceitar mais que mudar.   Por mim, não estou muito convencido.  Vivo na emigração e  emigração é prova do contrário. Quem deixa a sua terra e se mete pelos caminhos do mundo à procura de vida melhor, procurando recomeços, novas chances, novas oportunidades, tem necessariamente de acreditar que é possível começar de novo, que é possível renascer, que é possível a Páscoa!

Somos um povo de emigrantes. “Cada dia é mais evidente que partimos, sem nenhum possível regresso no que fomos” (Sophia de Mello Breyner).
Entristecem-me sempre as conversas com pessoas que me procuram a participar que vão “desistir” da emigração e “retornar” a Portugal, porque não conseguiram aqui “orientar a vida”. Voltar/retornar poderia ser também um novo recomeço, mas não: trata-se aqui de um voltar por falta de perspectivas e sem perspectivas. É o voltar de braços caídos. Apetece-me dizer a cada caso: não vá, tente de novo, depois do inverno virá a primavera, depois do “deserto” vem a Terra prometida… mas nem sempre o faço, as decisões estão tomadas e resta-me desejar que não seja o fim do sonho, mas apenas um adiar.

Numa localidade aqui da região, por onde frequentemente passo em serviço, há um sítio onde não consigo passar sem reflectir.  Ao atravessar a localidade há um momento em que a rua principal se bifurca em T. Não há estrada em frente. Só é possível virar à direita ou à esquerda. E nesse momento de “decisão”, há duas placas a orientar a condutor. Duas só. Uma, com seta para a direita diz “cemitério velho”; apontando para a esquerda, a outra diz: “cemitério novo” !!  Muitas vezes vivemos como se a única decisão que temos de tomar fosse entre cemitério velho e cemitério novo. Ser escravos do trabalho aqui, ou ser escravos do trabalho lá. Inverno aqui ou inverno lá. Crise aqui ou crise lá. Mas a Páscoa é anúncio de alternativas! É desafio a acreditar e a apostar nelas! É primavera!

Jn
Publicado no jornal „Portugal Post“, Abril 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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