Confiar e amar

A propósito do texto bíblico proposto para o evangelho de Domingo 10.04.2016, Terceiro da Páscoa C: João 21,1-19. Leia antes o texto bíblico, por exemplo em http://evangeliumtagfuertag.org

Barco_bodensee_16   Crise, impasse. Algo de semelhante teve de acontecer entre Jesus Morto e Ressuscitado e os seus discípulos, desiludidos pela morte e sem perceber o que estava a acontecer, mesmo quando diziam “vimos o Senhor!”.

É assim que no evangelho proposto para este domingo temos mais uma dessas experiências de morte/ressurreição, de impasse/saída, de dúvida/confiança que acompanharam os primeiros cristãos na “primeira hora”.

Depois de três anos com Jesus, depois de tudo o que ouviram, viram e viveram com ele, os discípulos pareciam não saber como continuar, ou se seria mesmo possível continuar, e estão decididos a voltar ao “antes” de Jesus, ao passado, à vida que tinham lá onde a deixaram para seguir Jesus. Pescadores que eram, voltaram à pesca…  E têm de reconhecer que,  pescando nas  “águas do passado”,  não encontram o alimento que procuram, o sustento que precisam, a razão para as suas vidas.    “Rapazes, tendes alguma coisa para comer?“, pergunta-lhes o Ressuscitado; – “Não”, responderam.  E Jesus desafia-os a lançar a rede de novo. É o desafio a confiar. Quando não há mais argumentos, só a confiança conta. Ou se confia e se avança, ou não se confia, e fica-se parado e se desiste. Os discípulos confiaram e acabaram por perceber: “É o Senhor!”. Experiência de ressurreição: as dúvidas desaparecem; onde parecia haver  impasse abriu-se um caminho novo;  a crise é ultrapassada. “Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar: «Quem és Tu?»: bem sabiam que era o Senhor”.

Depois desta experiência de confiança, o Ressuscitado faz aos seus discípulos um outro desafio, igualmente exigente: o do amor. E fá-lo, a título exemplar, com Pedro, o discípulo que tanta responsabilidade  pastoral (“apascenta as minhas ovelhas”) iria ser chamado a assumir na primeira comunidade. “Tu  amas-me?”.  Jesus pergunta três vezes – uma alusão à tripla negação de Pedro. “Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo“.    O amor declarado, três vezes seguidas, sem hesitação, mas com humildade de quem sabe que já falhou e faltou a este amor.  É a melhor saída para a crise. A relação dos discípulos com Jesus volta à sua vitalidade. A fé na ressurreição torna-se concreta. Torna-se compromisso assumido.

Na nossa Igreja, entre muitos cristãos, sobretudo ao nível de muitos responsáveis de comunidades e movimentos, reina uma certa crise. 50 anos depois do Concílio Vaticano II (sem dúvida um momento de morte e de ressurreição, por isso exigente!),  ainda há muita gente a querer voltar ao passado, como se a pesca do passado – os tempos de cristandade – fosse ideal e possível de repetir a todo o momento. Falam de “nova evangelização”, mas  pensam na recuperação das estruturas de poder e influência. Um exemplo concreto: perante a falta de padres, de jovens que se queiram comprometer com esta Igreja, poucos são os que têm a coragem de colocar a questão da mudança do compromisso e da figura do presbítero que os últimos 5 séculos nos deixaram.
Contra esse voltar ao passado, o Espírito convida a Igreja à confiança – lançar de novo as redes – e a uma conversão sem hesitação ao amor de Deus para com a humanidade.

Na nossa vida pessoal de crentes, a todos os níveis, crise é tempo de perguntar-se: será que eu confio? Será que amo?  Se confio e amo, então acredito verdadeiramente que Ele está vivo!

Jn
10.04.2016
João 21,1-19.

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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