Um negócio de bazar….

Começou esta semana a concretizar-se o acordo feito entre a União e a Europeia e a  Turquia para tentar resolver a questão dos refugiados. A Turquia compromete-se a  receber todos os que, depois  do 20.03., saindo do seu território ilegalmente conseguiram alcançar as ilhas gregas como refugiados ou buscadores de asilo. A União Europeia compromete-se a fazer sair legalmente da Turquia tantos sírios quantos os sírios que, segundo o referido acordo, sejam devolvidos à Turquia (só de sírios se trata, não dos refugiados de outros países!).

Foi assim que no primeiro dia do cumprimento do acordo, voltaram à Turquia 202 refugiados. E chegaram à Alemanha, de avião, vindos directamente da Turquia, 32 refugiados sírios.

O futuro irá dizer até que ponto este acordo vai resultar. Mas para já, duas coisas me parecem claras:
1. Trata-se, neste acordo, de tentar resolver o problema  da Europa (e também da Alemanha). Nem a União Europeia, nem mesmo a Alemanha, conseguiram apresentar um plano para o acolhimento digno das centenas de milhares de refugiados que esperam a possibilidade de encontrar algures um abrigo, um porto seguro, condições dignas de sobrevivência, uma vez que nos seus países de origem, reina a lei da bomba, a guerra, a destruição, o terror. Trata-se de resolver os problemas da União Europeia, não os problemas dos refugiados, nem das causas da sua fuga.

2. As negociações com a Turquia foram mais um negócio de “bazar”, que verdadeiras negociações de políticos conscientes das suas responsabilidades pelas grandes causas da humanidade. No bazar turco ou nas nossas feiras, regateia-se o preço, mas não se discute a qualidade. A Turquia quis tirar o máximo de proveito financeiro e político destas negociações. Estava do lado do que vende. A União Europeia precisava a todo custo da “intervenção” da Turquia para a retenção dos refugiados. O preço que a União Europeia pagou foi elevado: a Turquia teve de ser declarada como país seguro – e são muitos os indícios que falam contra! Mas a Europa tem de fechar os olhos ao que lá se passa – e vai receber 6 mil milhões de euros da União. (Será que vão mesmo ser aplicados no acolhimento dos refugiados?!)… E foi muito pouco o que recebeu: uma pseudo-solução do “problema” dos refugiados, que não passa de uma questão adiada.

Os refugiados são pessoas. Não são mercadoria sobre a qual se possa negociar, ou receber à comissão, ou devolver se não servir…  Devem ser tema de negociações, mas não de “negócios”…

O futuro dirá mais. Não acredito que as direitas nacionalistas europeias, que assustam alguns dos actuais responsáveis políticos, como Angela Merkel ou François Hollande, se dêem por satisfeitas. E duvido que a Europa possa continuar a fechar os olhos à violação dos direitos humanos na Turquia.

Jn
07.04.2016
Publicado no jornal Portugal-Post Online

 

 

 

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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