O Pastor e os pastores

bompastor1     A propósito do texto do evangelho proposto para este domingo, IV da Páscoa C: João 10,27-30. Leia antes o texto bíblico, por ex. em http://www.evangeliumtagfuertag.org

Os bispos costumam designar-se como „pastores“ . As suas mensagens ao “povo de Deus” recebem o título de “cartas pastorais”. A sua actividade, alargada depois aos seus colaboradores, padres e leigos, é habitualmente conhecida como “pastoral”. Pastoral, em geral, ou pastoral especializada, quer dizer, referente a trabalho com sectores específicos da população: pastoral juvenil, pastoral da saúde, pastoral do turismo e mobilidade…

A linguagem vem do evangelho, sem dúvida, ou mesmo já do Primeiro Testamento bíblico.  Na Bíblia, estava bem claro que o Povo era pertença de Deus, só ele era Senhor e verdadeiro “Pastor” . Jesus atribui-se a si mesmo o título de “Bom Pastor”, e reserva-se uma relação privilegiada com as suas “ovelhas”, bem diferente das do mercenário ou do empregado.  É que ele ama-as tanto que vai até ao ponto de dar a sua vida por elas !

Pondo de parte o ressaibo arcaico destas imagens, e a nossa repugnância moderna  em sermos tratados como ovelhas, há que reconhecer que são imagens que irradiam carinho e beleza. Quem nunca viu um pastor que traz ao colo ou aos ombros um cordeirinho  talvez não entenda. É uma imagem de carinho e é deste carinho que o Evangelho quer falar com estas imagens do “pastor” e das “ovelhas”.  É da relação de confiança que as ovelhas têm no seu  pastor que se trata, num código poético que nos deve levar a passar de “ovelhas” para pessoas, de “pastor” para Senhor, sem nos fixarmos demasiado na palavra em si.

No Primeiro Testamento, nos tempos de Israel, Deus prefere apresentar-se como “Pastor” e não como “rei”, “chefe” ou “imperador”. A relação de Deus com o seu povo é de preocupação, de cuidado, de serviço, de salvação – e não de poder.  „O Senhor é meu pastor, nada me faltará“ (Salmo 23).  Jesus assumiu esta atitude de servir. “Servo de Javeh”, pastor da humanidade enquanto “rebanho” de Deus

Jesus não abre mão do seu Povo. Ele continua a ser o seu verdadeiro “pastor”, o amigo que acompanha a sua comunidade, numa presença que não desilude, numa relação que mais ninguém pode conseguir nem ninguém pode pretender imitar sem cair na arrogância. E se ele diz a Pedro : “apascenta as minhas ovelhas”, dá-lhe trabalho, não lhe dá as ovelhas. Dá-lhe tarefa, não poder.

Na Igreja há serviço pastoral quando a Igreja e os seus agentes e membros se compreendem ao serviço de uma humanidade carenciada, esfomeada, desorientada  “como ovelhas sem pastor”. Deus, Pastor da Humanidade , pede a ajuda de todos os que acreditam, de todos os baptizados, para acarinhar, alimentar, acompanhar.  Numa palavra: para servir.  São os muitos pastores e muitos mais se precisam. Há mesmo em cada cristão uma dimensão pastoral a despertar e re-valorizar no sentido da Igreja do Concílio, na medida em que Deus nos confiou uns aos outros e a todos dá os carismas do Espírito. Ninguém é só „ovelha“. Todas e todos na Igreja têm um pouco de responsabilidade pastoral. Nem sempre lhes é reconhecida. Nem sempre é assumida.

Somos todos „pastores“, mas só Ele é “o” Pastor. E ao seu serviço andamos.

Jn
17.04.2016

 

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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