Identidade

 

cartaocidadaoA propósito do texto do evangelho para o V domingo da Páscoa C:  João 13,31-33a.34-35

Conhecemos a velha acusação: a religião é o ópio do povo. E dizer religião, ao tempo de Karl Marx, era o mesmo que dizer cristianismo.
Se ao dizer cristianismo pensarmos em todas as pregações apelando à resignação e à sujeição à dureza da vida; se pensamos em todos esses apelos a viver o seguimento de Jesus como uma via-sacra de “levar a cruz até ao calvário”, em todas as ameaças de castigo eterno ou em todos medos de Deus ou do seu oposto (diabo, inferno etc), então até percebemos de onde vem essa acusação.

Mas se, pelo contrário,  ao falar de cristianismo procuramos as referências dos começos, dos textos fundadores e das experiências insubstituíveis do início, aquelas que têm a ver com a „memória“ de Jesus de Nazaré, temos dificuldade em entender onde está o “ópio”.

Jesus deixou como testamento um programa claro: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34). E o critério para a definição da identidade do cristão e do cristianismo é inequívoco: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).   João, o quarto evangelista, coloca estas palavras na boca de Jesus pouco depois da cena do lava-pés. As palavras são uma espécie de chave de interpretação para uma praxis que era bem a prática de Jesus.

O testemunho dos cristãos no mundo nem sempre foi o melhor. Houve de tudo ao longo destes dois mil anos:  abuso do poder, guerras, inquisições, cruzadas, caça às bruxas e hereges, anti-semitismo… Numa palavra, perversão!  Mas nunca a “perversão”  se impôs como regra. E em nenhuma fase da história faltaram  os profetas,  vozes a denunciar todas essas aberrações, que cristãos praticavam, mas não eram “cristãs”. Não se podiam apoiar no nome de Deus nem se puderam justificar com o Evangelho  de Jesus.

O amor, como o viveu Jesus, e como Ele no-lo entregou, é tarefa que transforma o mundo e a vida. “Este” mundo e “esta” vida. O “aqui” e o “agora”.  Começar a construir aqui neste mundo, sem adiamentos, o “novo céu” e a “nova Terra” (Apocalipse, 2ª leitura deste domingo), a partir do amor, da justiça, da fraternidade é viver o mandamento novo de Jesus. O amor, neste „mandamento novo“,  tem mais a ver com as lutas por mundo mais justo e humano e com os empenhamentos árduos pelas grandes causas da humanidade do que com os sentimentalismos dos que cantam “aleluia!” e divulgam devoções e imagens pietistas tipo Jesus de coração fora do peito a irradiar luz …

Que religião é esta que testemunhamos e praticamos? Que a caracteriza? Reconhece-se nela o amor deixado por Jesus Cristo como critério de identidade? É uma religião que abraça a vida e o mundo para os transformar, sem „ópio“ nem falsas promessas?

Jn

João 13,31-33a.34-35

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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