A questão de sempre

Cristo_amigo_kopt_ikone  A propósito do evangelho proposto para este domingo, 12º do tempo comum C: Lucas 9,18-24

A crise do cristianismo nas nossas sociedades ocidentais, pretensamente ou supostamente tidas como cristãs, tem feito correr rios de tinta. Os livros publicados sobre o tema ocupam estantes inteiras nas bibliotecas. Mas que se quer dizer quando se fala de “crise”?!
Será só a crise da instituição, a perda de influência social da Igreja? Será a tão repetida “crise de vocações”, que conduz as comunidades a becos sem saída? Será a diminuição – para todos os efeitos, sintomática – dos índices de prática de religiosa dos que se dizem crentes? !   Será a constatação de que cada vez há menos jovens e crianças dispostos a “vestir a camisola”, como quem veste o tricot do seu clube de futebol?

Os grandes teólogos do nosso tempo levam-nos a pensar que a crise é mais fundamental: que se trata mesmo de uma crise de fé. Acreditar deixou de ser algo evidente. Os nossos contemporâneos, a começar pelo mais jovens, fazem a experiência de que se pode viver bem sem “acreditar”, isto é, sem ter de responder às perguntas que nos foram postas no baptismo, sem ter de confrontar-se com,  nem ter de anuir às afirmações do nosso “credo”.  Uma minoria faz ainda da religião e do pietismo a sua „força“, mas evita ou recusa a reflexão complexa, o pensamento diferenciado e o diálogo com a modernidade.

Porque esta  dificuldade em acreditar? não haverá por detrás um mal entendido que é tão velho como o cristianismo, onde bem cedo se reduziu a doutrina aquilo que era mensagem alegre para a vida?! Não será que temos de distinguir, à boa maneira escolástica, entre „acreditar em quê“ e „acreditar em quem“?

O texto do evangelho deste domingo coloca-nos a cena relatada pelos três evangelhos sinópticos, em que Jesus, sentindo que  algo “não batia certo” entre a sua proposta e a expectativa dos seus conterrâneos e contemporâneos , confronta os discípulos com esta dupla pergunta: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” e “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

À resposta de Pedro   – “És o Messias de Deus!” – Jesus, de forma bem diferente da versão de Mateus (em que ele confirma e elogia Pedro pela sua fé),  avança com uma reflexão que me parece importante:  crer que Jesus é o Messias é mais que afirmação de credo, mais que uma afirmação de fé-conhecimento. Crer em Jesus é segui-lo, aderir à sua maneira de viver, à sua mensagem do Reino, às suas propostas formuladas de forma tão concisa nas bem-aventuranças. Crer em Jesus é ver nele caminho que conduz a Deus: reconhecer n`Ele o amor de Deus que nos envolve e nos convida, tornando-nos capazes de fazer da nossa vida uma procura de Deus no mundo e nos outros, de estar atentos aos sofrimentos do outro, de dar a vida por um mundo diferente e preparar-se para poder ir até ao dar a vida.

No nosso credo, aquele que recitamos aos domingos e aquele que vem reflectido nos catecismos, há muito pouco, quase nada, deste Jesus portador de  uma mensagem,  a pedir uma adesão “cúmplice” à sua pessoa e ao seu evangelho. Ao longo dos séculos a Igreja ensinou fórmulas e orações, mas anunciou pouco Evangelho (boa nova).

E para o anúncio do Evangelho do amor de Deus Jesus viveu. Por ele deu a vida.

Pode-se viver bem sem fé, mas com esta fé à maneira da fé de Jesus vive-se diferente.  A pergunta “Quem é Jesus para ti” não exige uma resposta (só) de catecismo, do tipo daquela que Paulo foi formulando no confronto com o judaísmo que deixara e com os gregos que  admirava. Não é só o vestir ou revestir a “camisola” de Cristo (Paulo aos Gálatas, no texto da 2ª leitura), repetindo o que outros nos disseram de Jesus, mas uma resposta pessoal de vida, uma atitude, uma maneira nova de estar no mundo e de dar sentido à vida.  A crise da fé pode ser só a de uma “fé”/religião que se entendia separada da vida…  Importa responder sempre de novo a esta questão de sempre: „Quem é (e não „o que é“) Jesus para mim?“

Jn
XII domingo comum C
19.06.2106
(imagem: Cristo e seu amigo Menas, ícone copta (sec VI)

 

Advertisements

Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
Dieser Beitrag wurde unter evangelho, Uncategorized abgelegt und mit , , , , , verschlagwortet. Setze ein Lesezeichen auf den Permalink.

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden / Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden / Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden / Ändern )

Google+ Foto

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden / Ändern )

Verbinde mit %s