Oração pelo mundo

A propósito do texto do evangelho proposto para este domingo, 17º domingo do tempo comum C: Lucas 11,1-13

Nos últimos dias,  uma série de acontecimentos perturbou o nosso „sossego“ de cidadãos do mundo: o atentado em Nice, com a morte de quase uma centena de pessoas entre as quais muitas e muitas crianças.. Na Turquia, a situação política fez surgir uma tentativa de golpe de estado, com muitas vítimas e graves consequências para o futuro desse povo…
E perguntamo-nos: que se passa com o nosso mundo? Que fazer?! Para onde estamos a caminhar?

Diante do mundo e dos seus tumultos e turbulências, o crente, como toda a gente, pode cair em várias atitudes, tomar diferentes posturas: ou volta às costas à realidade, refugiando-se numa religião intimista, espiritualista, a-temporal; ou cai no pessimismo e começa a amaldiçoar o mundo, num dualismo religioso que vê tudo a duas cores: branco-preto, bom-mau, servindo-se uma teologia fundamentalista e agressiva, em que os conceitos de pecado e de mal se tornam centrais; ou então procura assumir a impotência recorrendo à oração-súplica, de intermediação, de intercessão, a partir da teologia do Deus-Amor e do Amor de Deus.

Para quem acredita no Deus de Abraão e acredita n`Ele à maneira de Jesus Cristo, só esta terceira atitude é aceitável. A primeira seria uma amostra de fé distorcida, longe daquela que se revela no „Pai-nosso“, sublinhando este „nosso“ que fala de um Deus que ama este mundo e que se revela atento e preocupado com as suas criaturas. A segunda renegaria a Esperança que se esconde na sua petição principal: „venha a nós o vosso Reino!“.

Jesus incita-nos à prática da oração de intercessão, de súplica pelos outros, pela cidade, pelos povos, por todos, pelo mundo. Não podemos fazer mais nada, mas podemos/devemos rezar, sem desistir. Aquele/a que crê em Deus à maneira de Jesus não pode deixar de manifestar esta fé-confiança numa oração que não desiste de pedir a intervenção e a misericórdia de Deus por todos os que sofrem. Quem, nas suas orações, reza só por si e pelos seus, não ama à maneira do samaritano que Jesus nos apresentava como exemplo („faz o mesmo!“). Quem deixa de rezar para que este mundo avance no sentido de crescimento em direcção ao Reino de Deus não entendeu o Pai Nosso.

No passado domingo, depois de uma semana marcada pelos referidos acontecimentos de Nice e da tentativa do golpe de estado na Turquia, a chamada „oração dos fiéis“ na celebração da Eucaristia foi lida do livro que a Conferência Episcopal Portuguesa elaborou… (Como, infelizmente, se faz na maior parte das Comunidades…*): nem uma palavra, nem um momento de silêncio, nenhuma súplica pelas vítimas dos referidos acontecimentos ! Não é essa a oração de Abraão, no belíssimo texto que nos é proposto como primeira leitura (Gén 18,20-32) , não é essa a oração e a forma de rezar que nos ensinou Jesus de Nazaré !

Que oração é a minha? Inclui „os céus e a terra“ e o sonho do Reino de Deus para este mundo?!

Jn
19.07.2016

Sobre a „oração dos fiéis“:
o concílio introduziu na liturgia este momento de participação de todos os fiéis e pediu que nela, depois de uma súplica pela Igreja e pelos que nela têm responsabilidades, outra pelo mundo e seus governantes e ainda uma terceira pela comunidade, se incluíssem as preocupações do mundo e da sociedade, local e globalmente. Ao optar pelo livro-único para a oração dos fiéis (diferentemente da atitude de outras Conferências Episcopais), que alguns assumem como obrigatório, a conferência episcopal portuguesa correu o risco de impor ou de estimular um hábito que não satisfaz nem uma coisa e outra: nem as súplicas vêm dos fiéis nem incluem os temas de actualidade… E é pena!

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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