Fátima, o centenário convida a reflectir

São muitos os que aguardam com expectativa aquilo que o Papa Francisco irá dizer em Fátima. O papa vai a Fátima, movido pela  sua devoção a Maria, mas creio que não perderá a ocasião de fazer denúncias proféticas e lançar apelos de mudança.  Em 1917, os pastorinhos sentiam o medo que atravessava as sociedades de então e nas suas intuições religiosas previram o “inferno” em que a Europa estava metida, com aquela primeira guerra e com as ditaduras que se lhe seguiram. 100 anos depois, um Papa que denuncia semanalmente as atrocidades da guerra, e falou mesmo de uma terceira guerra mundial “combatida em episódios” ou que abertamente toma posição contra uma “economia que mata” ou contra o grande pecado da “indiferença global”, não deixará de interpretar e actualizar a mensagem de Fátima no seu essencial: apelo à oração, à penitência e à conversão.  Vamos aguardar e deixar-nos surpreender.

O centenário de Fátima está a ser também ocasião para a publicação de uma serie de reflexões e de investigações, umas mais de carácter histórico, outras de reportagem jornalística, outras de nível teológico, numa pluralidade de perspectivas digna de apreço.

Ao nível da reflexão teológica,  queria salientar o livro de um bispo português, D. Carlos de Azevedo, intitulado “Fátima: das visões dos pastorinhos à visão cristã” (Esfera dos livros, Abril 2017). Entre outras reflexões, o autor tem a coragem de levantar com clareza a questão da própria linguagem (que não é mera questão de palavras): deve falar-se de “aparições de Nossa Senhora” ou antes de “visões dos pastorinhos”?!  D. Carlos de Azevedo, e, com ele outros teólogos de nome, entre os quais estaria o próprio Papa Bento XVI enquanto cardeal Ratzinger, não hesita: tratou-se de visões. Em Fátima, houve visões. Foram experiências místicas de crianças que “viram” aquilo que uma criança do seu tempo podia “ver”,  “dentro dos esquemas religiosos da altura” (Pe. Dr. Anselmo Borges, no jornal “Expresso” 15.04.2017).  São visões particulares, que traduzem em imagens as vivências dos “videntes”.

Talvez os milhares de pessoas que acorrerão a Fátima neste 13 de maio centenário não se deixem envolver nestas reflexões. Não é fácil re-trabalhar convicções religiosas. Assim como as centenas ou talvez milhares de pessoas, que, “cumprindo promessas”, caminham nas bermas das estradas do país para chegar a Fátima não estarão muito abertas a uma reflexão  que ouse interrogar que imagem de Deus uma religião de promessas traz consigo. Fátima cresceu com as promessas. Não seria este centenário uma boa ocasião para uma campanha de evangelização de forma a ajudar os “pagadores de promessas”  a converter-se em peregrinos e buscadores de Deus à maneira de Maria de Nazaré?!

Os santuários do nosso tempo, Fátima não é excepção, são cada vez mais lugar de chegada de devoções particulares. Nesta história de 100 anos, Fátima passou por tudo: diferentes “fases da apropriação da mensagem” (Carlos de Azevedo, p. 158). Depois de uma fase nacionalista, de uma fase anti-comunista, estaremos agora numa fase pastoral.  Será o Santuário capaz de intensificar ainda mais esta fase, que parte do respeito pela devoção popular, mas que não pode deixar de  ajudar o crente e alargar horizontes, de forma a não ver só a sua situação, mas a “consagrar-se” às preocupações da comunidade pelos problemas do mundo?!

Na emigração, e também aqui  entre nós, na Alemanha, Fátima já tem há muito lugar estabelecido. Várias peregrinações regionais reúnem milhares de portugueses: em Otto-Beuren (sul), em Marienthal (centro), em Kevelar (norte), para citar apenas alguns desses lugares de encontros anuais.  Fátima tornou-se cada vez mais referência de identidade nacional no estrangeiro.  Muitos dos que anualmente aparecem nessas concentrações de portugueses até já perderam, ou nunca o tiveram!, o contacto assíduo com as comunidades de língua portuguesa (vulgarmente, ditas “missões”), mas à celebração de “Fátima” na sua região não querem faltar.  Fátima é, para os portugueses na emigração, uma referência “identitária”, sem dúvida. Mas não pode ser vivida de forma a impedir-nos de construir comunidades (cristãs) abertas à cultura e ao meio em que vivemos, porque as nossas comunidades são parte da Igreja local.. Maria, a mãe de Jesus, tem (também aqui, neste país) uma multidão incontável de imagens e de títulos, e a de Fátima é apenas uma delas!

Publicado no jornal PORTUGAL POST
Maio 2017

Joaquim Nunes

 

 

Advertisements

Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
Dieser Beitrag wurde unter actualidade, Uncategorized abgelegt und mit , , verschlagwortet. Setze ein Lesezeichen auf den Permalink.

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden / Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden / Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden / Ändern )

Google+ Foto

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden / Ändern )

Verbinde mit %s