A hospitalidade que fecunda

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A propósito do texto proposto como 1ª leitura deste domingo, XIII Comum A: 1 Reis 4,8-11-14-16.

Nos povos do médio oriente, a hospitalidade é um valor social altamente cotado. Acolher é um dever. As viagens a pé, e, de modo especial, as travessias do deserto, colocavam facilmente o viajante e o caminhante em situações de carência: ser acolhido nas aldeias ou simplesmente numa tenda de beduínos ou pastores era a única maneira de poder sobreviver à dureza da caminhada. Acolher, não só um amigo ou um conhecido, mas a todos: acolher quem chega, quem passa, o que fala a mesma língua tal como o estranho e o peregrino. Por detrás desta ética cultural, há muito mais que um sentido pragmático  (eu acolho hoje, para poder ser acolhido amanhã ).  Acolher é uma espiritualidade. Há uma espiritualidade do acolhimento: ao acolher, acolho o próprio Deus, que protege o peregrino com a Sua lei, se é que não é Ele mesmo o peregrino que bate à minha porta. É sobretudo nesta perspectiva que a hospitalidade é apresentada nos textos bíblicos: dos mais antigos (ver o acolhimento que Abraão faz aos peregrinos em Gen 18) até aos mais recentes (Jesus em casa de Marta e Maria, ou a palavra de Jesus proposta como evangelho deste 13º domingo comum: “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40).

A leitura do segundo livro dos reis é uma bela história de acolhimento. A sunamita, senhora de condição, dá provas de um grande sentido de hospitalidade. Começa por convidar o profeta para comer em sua casa e acaba por lhe mandar construir um quarto na sua casa, onde ele pode ficar sempre, quando passar nas suas andanças de profeta.  A abertura para acolher não é, como sabemos, um efeito “normal” da riqueza. A maioria dos ricos parece fechar-se no medo de expor e de perder as suas riquezas. Esta senhora do livro dos Reis, na sua situação de bem-estar, não hesita em acolher, sabendo utilizar a riqueza que tem.

Se a espiritualidade do acolhimento nos diz que ao acolher o pobre acolhemos o próprio Deus, ela também nos garante que o próprio Deus não deixa a hospitalidade sem recompensa. A senhora recebe como “prenda” aquilo que ela, com o seu marido, não conseguia ter e que tanto terá desejado: um filho.  Tal como Sara (Gen 18,12-15), também ela nem quer acreditar:  o acolhimento fecunda quem acolhe e enriquece quem é acolhido.

Na Europa de hoje, o tema do acolhimento é de uma enorme actualidade. Centenas de milhar de pessoas procuram acolhimento na Europa da riqueza, da segurança e do bem-estar.  Atravessam mares e continentes na expectativa de receber asilo.

O tema, nas suas diversas perspectivas, tem uma complexidade que nos inibe de dogmatizar soluções. Uma ideologia do acolhimento corre o risco de ignorar questões sérias. Mas as dificuldades em encontrar soluções-receita não podem impedir-nos de continuar a procurar praticar a espiritualidade do acolhimento: essa de ver em cada ser humano um peregrino de Deus… Na leitura das entrelinhas do livro dos Reis, parece adivinhar-se uma estratégia: começar por convidar para uma comida partilhada; escutar com atenção a sua história;  tentar aperceber-se das suas carências. Necessita de acolhimento imediato?!  – Vamos acolhê-lo como a sunamita acolheu Eliseu. Depois, ele seguirá o seu caminho. E no espaço que criarmos em nós e nas nossas sociedades para o acolhermos, ficará a abundância  da bênção de Deus.

28.06.2017

„A porta está aberta, mais ainda o coração“
(adágio da espiritualidade cisterciense)

 

 

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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