A humildade que desarma

A propósito do texto de Zacarias (Zac 9,9-10), proposto como primeira leitura para este XIV domingo comum A:

Humilhado a frequente pelas grandes potências da região, não admira que Israel tenha construído e alimentado ao  longo dos séculos o sonho de um rei glorioso, detentor de um poder inegável e reconhecido por todos os povos vizinhos.  Como pano de fundo havia a imagem de David ou mesmo de Salomão. Um outro David – o „filho de David“ – viria, e a sua cidade, Jerusalém voltaria a brilhar. Sonhos de grandeza… que nunca passariam a realidade, a não ser aos olhos da fé.

Profetas, como Zacarias, foram tentando corrigir este sonho. Eram os tempos de grandes imperadores, como Alexandre Magno, que dominou sobre todo o mundo conhecido de então (Sec IV – III aC). Mas visto em contexto histórico, o texto entende-se melhor. O rei de Israel será um rei diferente : „virá montado num jumentinho“, e não num cavalo de raça. O jumento era o „cavalo“ dos pobres.  O „segundo“ Isaías fala do „enviado“ como um servo sofredor, sem as glórias das vitórias…

Importante, para o profeta, não são as glórias e as grandezas do „rei“ que aí vem, mas sim que ele, sem confiar nas armas, ou mesmo destruindo-as (!), virá trazer a paz a Israel e, depois de Israel, de povo em povo até aos confins da terra. Um rei humilde ?! Um poder sem armas?!

Esta visão alternativa do poder não „pegou“. O próprio Jesus teve dificuldades em passá-la aos seus discípulos. Na Igreja, ao longo dos séculos, valiam acima de tudo as honras e as glórias, a carreira e a procura de poder hierárquico. „Igreja serva e pobre“, ao jeito de Jesus?! Foi um sonho que não morreu. Passou… de Jesus de Nazaré a Francisco de Assis; de S. Vicente de Paula a Charles de Foucauld… a D. Hélder, a João XXIII… e aí está chegado a Francisco, o Bispo de Roma.

Nos tempos que correm, a nível geopolítico, voltamos aos nacionalismos, às afirmações de poder, à subida ao trono de „homens fortes“…
A Igreja, os cristãos, e, que bom seria se pudéssemos mesmo dizer, as religiões!, descobriram que não é na força das armas que está a salvação, mas no Deus humilde e pobre. Ele convida-nos a viver esta humildade que desarma: nas relações do dia-a-dia como nas relações internacionais.

Jn
05.07.20117

Se quiser também pode ler a reflexão sobre o texto do evangelho do domingo, já aqui disponível neste blog em: https://jamnunes.wordpress.com/2014/07/06/que-alivio/

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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