Fé e tolerância

A propósito do texto do livro a sabedoria, proposto como primeira leitura para este domingo 23.07.2017, 16º doming comum A: Sab 12,13.16-19

No primeiro século antes de Cristo, isto é, pouco antes da entrada na história do profeta Jesus de Nazaré, o livro da sabedoria é  um bom testemunho de uma teologia que procura tornar acessível às pessoas de cultura helenista a fé de Israel, os seus valores, a sua imagem de Deus e do mundo.

O texto que foi escolhido como primeira leitura deste domingo é uma reflexão simples mas profunda sobre a imagem de Deus que Israel foi “descobrindo” na sua caminhada de séculos. JaHVeH é um “Deus clemente e compassivo, lento para a ira, rico de misericórdia”: esta afirmação do Livro do Êxodo (34,6) foi-se concretizando e confirmando nas diferentes fases da relação de Israel com o seu Deus. JaHVeH podia castigar o seu povo de forma bem dura, mas não o fez; preferiu as leis da misericórdia.  Ele podia mostrar o seu poder, a Sua „força“, aos povos estrangeiros, de forma a impor-se de uma vez para sempre, mas não o fez;  preferiu o método da „bondade“.
Assim JaHVeH não só se revelou um Deus diferente, sem nada de antropomórfico como o era o caso dos deuses da mitologia grega, como também ensinou o seu povo a ser diferente: „O justo deve ser humano“.

O justo aos olhos de Deus, isto é, o verdadeiro crente, tem de ser humano, cada vez mais humano. Se deixar de ser humano na forma de viver a sua religião ou na maneira de a defender e propor (impor) aos outros, deixa de ser justo aos olhos de Deus.   Quanto mais crente, mais humano. Quanto mais humano, mais justo, mais próximo de Deus.

Jesus não pregou outra coisa: esta fé-confiança, que temos como caminho para Deus, tem também de nos aproximar e levar ao encontro dos outros. Não podemos passar pela vítima caída a beira do caminho como se a não víssemos, desculpando-se de ter de participar na liturgia do templo.
Não vale a pena tentar convencer outros da superioridade dos dogmas e valores morais da nossa religião, se o fazemos de uma forma que não é respeitadora da dignidade humana.  E a liberdade religiosa – a de optar livremente pela sua religião, ou a de não ter nenhuma – é dignidade humana.

Um Deus paciente, clemente, bondoso, humilde… É deste Deus que os judeus do tempo do livro da sabedoria eram convidados a dar testemunho no meio dos povos de cultura helenista. É deste Deus, e a seu jeito – com paciência, tolerãncia, respeito pelo diferente e pela digndade de todos –,  que temos hoje de dar testemunho num mundo que parece viver, e viver bem!, como se Deus não existisse, ou então perante o fanatismo religioso que para aí está, permitindo-se fazer tudo em nome de Deus (Que Deus é esse, apetece peguntar?).  20 séculos depois de Cristo, continua a valer aquilo que o livro da sabedoria reflectia no sec. I aC.: o crente em Deus tem de ser (antes de mais) humano…

Se quiser, pode ler também a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/07/18/fazer-da-vida-uma-parabola/

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Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de nos últimos três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), passarei a partir de agora a escrever pequenos comentários à 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
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