Tempo de re-ler, tempo de voltar

No_meio_de_ruinas

A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo (11.03.2018), 4º domingo da quaresma B: 2 Crónicas 36,14-16.19-23
Leia antes o texto bíblico, por ex. em http://www.evangeliumtagfuertag.org

Uma leitura religiosa da vida e da história da salvação é uma exigência da fé. A fé não se cansa de reflectir e perguntar pelo sentido de tudo o que (nos) acontece. Recusa-se a aceitar o “mero acaso” e é incompatível com o absurdo. Perguntas como estas: Porquê tudo isto? Que  (me/nos) quer Deus dizer? Onde esta(va) Deus em tudo o que acontece(u)?  Como reagir de forma coerente com a (minha/nossa) relação com Deus? Interrogações sobre interrogações. Uma fé que não se interroga nem interpreta está morta.”Crer é interpretar” ( Claude Geffré), sempre.

Assim sendo, é de primeira importância a questão dos modelos e paradigmas com que a fé interpreta ou das imagens de que dispõe para a leitura dos acontecimentos e da vida.  O texto do Livro das Crónicas, por exemplo,  utiliza como modelo de leitura o princípio da retribuição: Deus retribui a fidelidade  do povo com bênção e a infidelidade com  o castigo. E daí toda a re-leitura da história de Israel a  que este autor desconhecido, o “Cronista”, aí pelos sec. IV a.C.  se dedica. O que correu mal – por exemplo, que os caldeus invadiram Jerusalém, incendiaram o templo e levaram para o exílio os sobreviventes – só pode ser visto como castigo de Deus. E o que correu bem – que Ciro, rei dos Persas devolveu a liberdade e deu ordens para a reconstrução do templo –  é  uma recompensa de Deus.  Um esquema simples mas problemático, porque  insustentável. A conduzir necessariamente a um secularismo ateu ou a um pietismo fundamentalista.

Jesus não se cansou de tentar corrigir esta visão de Deus e da sua justiça.  Quando perante um cego de nascença, lhe perguntaram: “quem pecou, ele ou seus pais?” (João 9,2), Jesus é claro na sua resposta: nem ele nem os pais.  Não há castigo de Deus a seguir a cada pecado; não há castigo de Deus em toda a calamidade natural e muito menos temos de procurar a „responsabilidade“ de Deus atrás das situações e catástrofes que são claramente „humanas“, como sejam as guerras (mesmo que religiosas!), as invasões, as destruições, as injustiças na distribuição dos bens da terra.  Há que dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.  Só assim poderemos entender este Deus que se revela do lado das vítimas e que sofre com quem sofre. Que se esconde no rosto dos vencidos e não dos vencedores. Que amou de tal maneira o mundo (pecador) que entregou o Seu Filho para lhe dar a vida (ver texto do evangelho de João proposto para este domingo).

Como entender esta primeira leitura em contexto de caminhada quaresmal? Parece-me importante ler o texto do fim para o princípio. A um povo regressado do exílio, diante de uma cidade devastada e de um templo em ruínas, o Cronista pretende, com a sua re-leitura da história, injectar coragem.  Apesar da sua visão da justiça divina como retribuição, acredita que a conversão do povo é possível, que Deus não prolonga os seus castigos sem limite, “que todo o exílio tem retorno” (D. António Couto, mesa de palavras), que aparecerá sempre alguém a reconduzir os cativos  de Israel, que é possível reconstruir Jerusalém e reerguer o templo, “que a história nunca pode pode ser travada”.  Uma certeza da fé, um horizonte de esperança. E um apelo a voltar, ontem como hoje. Só assim se entende que tenha sida escolhido para este quarto domingo da quaresma.

Jn
05.03.2018

Se puder, leia também a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo (IV Quaresma B) aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/03/13/deus-e-o-mundo-uma-historia-de-amor/

 

 

Advertisements

Über nunes2013

Sou assistente pastoral numa comunidade católica de língua portuguesa. Depois de ao longo de três anos (2013-2016) ter publicado reflexões sobre os evangelhos de domingo (que continuam aqui disponíveis), escrevo agora semanalmente pequenas reflexões a partir do texto bíblico da 1ª leitura do domingo (quase sempre do Primeiro Testamento). Por necessidade e por opção, gosto de reflectir semana a semana os textos que nos são propostos para as celebrações dominicais. Esforço-me por partilhar a minha reflexão aqui, nesta página, à terça-feira. Para além disso, escrevo sobre temas relacionados com e/imigração e sociedade multicultural. O meu nome: Joaquim A Marques Nunes. A minha sigla: jn (Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico!).
Dieser Beitrag wurde unter actualidade, evangelho, Palavras que não passam (AT), Uncategorized abgelegt und mit , , , verschlagwortet. Setze ein Lesezeichen auf den Permalink.

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden /  Ändern )

Google+ Foto

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden /  Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden /  Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden /  Ändern )

w

Verbinde mit %s