A “causa” de Jesus continua

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Nesta manhã de sábado santo, entre a Cruz de sexta-feira e os “Aleluia” da vigília pascal, um programa de rádio me interpelava com estes dados: A Páscoa é festa em que os cristãos celebram a ressurreição de Jesus. Mas, na Alemanha, um em cada dois cristãos dizem não acreditar que Jesus ressuscitou. Perguntei-me: será que não acreditam na verdade da fé? Ou será apenas que não acreditam nas formulações tradicionais?. Os teólogos contemporâneos – e no fundo, de todos os tempos – não cessam de interrogar-se: que queremos dizer quando dizemos “Cristo ressuscitou”?

Para o evangelho de Marcos, o Crucificado não se encontra no sepulcro: o Crucificado foi exaltado, “ressuscitado”, no momento mesmo da sua morte, a ponto de na Cruz se revelar a sua verdadeira identidade: “verdadeiramente este homem era Filho de Deus”.  O túmulo vazio é como que a descrição narrativa desta experiência das discípulas e discípulos: só se pode entender a morte de Jesus à luz da sua vida e da sua pregação; há que procurar o sentido da cruz voltando à Galileia (a tudo o que Jesus pregou: sobretudo a sua nova imagem de Deus, pela qual Jesus foi até à morte). E uma vez encontrado este sentido, a resposta só pode ser uma: Deus deu-lhe razão, Deus “exaltou-o” e confirmou-o. E, consequentemente, “a causa de Jesus continua” (“Die Sache Jesu geht weiter”), como diz um grande teólogo alemão (Marxsen)

As narrações pascais das “aparições” do Ressuscitado e os encontros com os seus discípulos vão nesta linha: não são descrições empíricas, mas afirmações de fé e da fé. Mas não foi a fé que “inventou” a ressurreição; a fé no Jesus ressuscitado vem desde a Galileia,  nasceu e cresceu lentamente nos discípulos, que foram “vendo”, à medida que Jesus lhe abria os olhos (e não foi de uma vez, foi processo: ver a cura do cego em Marcos 8). Pouco a pouco foram “vendo” que este Jesus estava tão perto de Deus como ninguém mais pode estar. Agora “vêem” que este Deus o levantou e exaltou!

Jesus foi ressuscitado, a sua “causa” continua. “Não se pode continuar com a sua causa, se Jesus não está vivo e presente. Não é possível proclamar de verdade a sua ressurreição sem incluir-se no seguimento da sua causa” (Andres Torres Queiruga, Repensar la ressurrección). E a Sua causa era anunciar às pessoas um Deus libertador, amigo, que não quer a morte das suas criaturas (nem sequer o castigo do pecador), que não precisa de sacrifícios nem de expiações, mas a todos convida para a vida, para a vida sem limites.

A ressurreição de Jesus é desde o começo testemunho da fé daqueles que entenderam a “causa de Jesus” e aderiram. E este testemunho continua. “Aquilo que Jesus foi, nós podemos, Deus e eu, fazê-lo ressurgir” (J. Pohier, Quand je dis Dieu).  Visto assim, quem sabe, muitos dos nossos contemporâneos teriam interesse em aprofundar a “ressurreição”: trabalho vivificante do Espírito de Deus nas suas vidas

Jn
Pascoa 2018

 

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Uma refeição pascal

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Quinta-feira santa
Texto : Êxodo 12,1-8.11-14

Tudo leva a crer que Jesus celebrou a última ceia em contexto de Páscoa. Tratava-se da “ceia pascal”, que o Povo de Israel bem conhecia e guardou até hoje.  Pão ázimo, ervas amargas, cordeiro ou cabrito eram os alimentos-base. Assim o Povo de Israel celebra(va) de ano para ano a libertação da escravidão do Egipto, conforme ritual descrito aqui no livro do Êxodo. Celebrar é mais que lembrar. Celebrar é actualizar: “Que cada um de nós se sinta hoje a sair do Egipto”,  exorta(va) o pai de família ou aquele que preside a essa refeição festiva.

Jesus aproveita esta tradição para dar sentido à sua morte pressentida. Ele quer deixar aos seus discípulos novas referências simbólicas : não mais o cordeiro imolado, não mais a vítima e o sangue, não a expiação através da vítima, mas sim o pão da vida e da partilha e o vinho da festa.

Com o andar dos tempos, Jesus foi identificado com o “cordeiro” de Deus, vítima expiatória, com um acento colocado no sacrifício da cruz. Perdeu-se em boa parte a ligação da Eucaristia com a refeição festiva da Páscoa. Caiu-se num realismo fisicista, “coisista”, em que o “tomai e comei isto é meu corpo” e o “tomai e bebei este é o cálice do meu sangue” passaram a ser entendidos à letra, numa linguagem fundamentalista despojada de toda a poesia e privada de toda a riqueza simbólica.   Opos-se “presença real” a “presença simbólica”, como se “real” fosse igual a “material” e o simbólico não fosse realidade.

Na eucaristia de “quinta-feira santa”, é Jesus mesmo quem convida e preside à refeição da festa da Páscoa. E ele mesmo se faz Pão partilhado e Vinho da alegria.  Pão e vinho: presença de humanidade e acção de graças da fé, dons de Deus e “frutos da terra e do trabalho”, partilha entre irmãos e comunhão com Deus. “A Eucaristia consiste em que o Espírito de Deus nos torna Cristo presente de tal forma que nos podemos alimentar da sua presença” (Jacques Pohier)

E o evangelho de João acrescenta o lava-pés: símbolo do empenhamento e do compromisso. Quem quiser ter comunhão com Ele, não basta comungar à mesa do altar: tem de viver para servir,  baixar-se para “lavar os pés”, renunciar à carreira e ao poder. É a Páscoa da libertação, não já à maneira do Êxodo, mas à maneira de Jesus Cristo.

Jn

 

 

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A Europa e o islão

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O debate voltou.  O islão pertence ou não à Alemanha?!

A discussão sobre o tema não é nova. Foi Christian Wulff, presidente da Alemanha (2010-2012), quem em 2010 ousou afirmar “O islão pertence à Alemanha”. As reacções não se fizeram esperar.

Desta vez foram os ministros de direita do novo governo Merkel quem ressuscitou o tema.  Seehofer e Dobrindt (ambos CSU) mal tomaram posse não perderam tempo a reabrir a polémica. Não há lugar para interpretações, na sua recusa de atribuir ao islão o “direito de cidadania”.  E é Angela Merkel quem se apressa a corrigir os seus ministros: O Islão pertence à Alemanha, porque na Alemanha vive uma população de mais de 4 milhões de migrantes de religião muçulmana (veja-se as suas afirmações na primeira declaração governamental de 21.03.2018).

A religião faz parte da identidade de uma pessoa. Os crentes de todas as religiões são desafiados a nunca renegar a sua fé e a sua pertença religiosa. Se vivem aqui e aqui pertencem mais de 4 milhões de pessoas que se identificam com o islão, não se pode negar que, nelas e através delas, o islão pertence a esta sociedade. E pertence tanto mais quanto mais aqui se “integrarem” e melhor participarem as pessoas que se confessam crentes dessa religião. Num estado laico, (todas) as religiões fazem parte da sociedade através das pessoas que as seguem.

Onde a tema me parece necessitar de precisão é quando se pretende comparar o islão com o judaísmo e com o cristianismo. Aqui a história parece ser clara. Judaísmo e cristianismo estão nas raízes e acompanharam a evolução da Europa e a formulação dos seus valores fundamentais, e isto desde a queda do império romano, muito antes da formação dos actuais estados europeus.   O islão acaba de chegar e está longe de encontrar o lugar que pretende ou que se lhe pode desejar. Em boa parte das suas manifestações religiosas, culturais e políticas  – sobretudo nas actuais imagens do islão político – há muito a fazer, para ultrapassar incompatibilidades com o sistema democrático, humanista, livre e igualitário em que a Europa ocidental nasceu e vive.
Um diálogo aberto com o islão e com as suas comunidades pode ajudar. Afirmações populistas para ganhar votos à direita ou à esquerda, não!

Jn
22 03 2018

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Servos de JaHWeH

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A propósito do texto proposto como 1ª leitura deste domingo de ramos: Isaías 50,4-7

Leia antes o texto bíblico !

Fala como um discípulo”, “ouve como um discípulo”, “sofre” como um servo… assim se apresenta o Servo neste texto do livro de Isaías.

Esta figura enigmática do servo de JaHWeH serviu aos primeiros cristãos de chave de interpretação e de “brecha de luz” na busca de compreensão daquilo que eles tiveram tanta dificuldade em aceitar: o sofrimento e a morte de Jesus de Nazaré. Porquê Jesus profeta de Nazaré teve de sofrer? Porquê teve de morrer o seu Messias? Que sentido dar ao sofrimento e à morte do “Justo” por excelência?
A resposta foi esta: Jesus é como o servo de JaHWeH de que fala o livro de Isaías em quatro cânticos cheios de imagens impressionantes de sofrimento.
O “Primeiro Testamento” ajuda a compreender o “Segundo”. Importante parece-me ser que não se afirme que o “Antigo” Testamento só tem sentido à luz do novo, importante é que não se lhe negue a autonomia nem a interpretação cristã se aproprie do seu sentido.

A vida, a paixão e a morte de Jesus são reveladoras daquilo que está no centro das preocupações do Deus que Ele testemunhou: o sofrimento. Deus preocupa-se com o sofrimento. É um Deus que vê, ouve e conhece o sofrimento da humanidade. E preocupa-se em manifestar o seu amor e a sua solidariedade com todos os que sofrem. Para isso, Deus “empenha” servidores desta causa como foi o Servo de JaHWeH ou Jesus Cristo…
Infelizmente, ao longo dos séculos a Igreja dedicou-se a falar do pecado e a dar às pessoas uma imagem de um Deus preocupado apenas com os nossos pecados. Do sofrimento e da compaixão passou-se à moral e ao julgamento…

A semana santa convida num primeiro tempo a meditar, a colocar os olhos em Jesus e nele descobrir o rosto verídico (o “ícone de Verónica”) de todos os que sofrem. Num segundo tempo, a tornarmo-nos nós mesmos solidários com os que sofrem, testemunhas do amor de Deus para com eles, servos de JaHWeH.

Jn
21.03.2017

Se quiser pode ler ainda uma outra reflexão sobre este texto de Isaías, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2017/04/04/servo-sofredor-ou-messias-triunfante/

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„Lei escrita no coração“! Obrigado, Jeremias!

A propósito dpomba_vitralo texto proposto como primeira leitura deste domingo (18.03.2018), V domingo da quaresma B: Jeremias 31,31-34
Leia antes o texto bíblico, por ex., em http://evangeliumtagfuertag.org

A polémica provocada pela encíclica „Amoris Laetitia“, no que diz respeito à readmissão aos sacramentos dos divorciados que se voltaram a casar, veio mostrar por onde passa a linha de demarcação das frentes: é a questão do reconhecimento ou não da consciência individual como instância habitual de decisão em questões morais.  Para uns, há as leis da Igreja sobre o tema e as leis é que decidem. Para muitos outros, entre eles o Papa, compete à consciência dos envolvidos discernir  e decidir.

A lei exterior, de um lado. A lei “interior”, escrita no “coração” do ser humano, do outro.
Para Jeremias, no texto que nos é proposto como 1ª leitura para este domingo, o próprio Deus é autor tanto da Lei gravada nas tábuas do Sinai como da Lei gravada no coração. Para Jeremias, a aliança nova que Deus quer fazer com o seu povo e com as suas criaturas baseia-se nesta “lei” no intimo da alma. A “lei do Senhor” passa a orientar o ser humano em geral e o crente em especial, não mais “a partir de fora”, exteriormente controlável e para todos igual, mas a “partir de dentro”, do coração de cada um, desse lugar de intimidade que só Deus conhece bem e só Ele pode avaliar com justiça.

Na nova aliança, ninguém tem de ditar a ninguém como há-de viver e se há-de comportar. Ninguém tem de ensinar  a ninguém como há-de conhecer e chegar até Deus, porque Deus mesmo se dá a conhecer e se revela no interior de cada um(a). “Todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno”, diz Deus. Temos apenas de nos ajudar uns aos outros a aprender a ouvir essa “voz” silenciosa que Deus faz ouvir dentro de nós. A Igreja e os seus responsáveis estão ao dispor dos crentes para ajudar a discernir se a voz que se faz  eco dentro de cada um(a) é mesmo voz de Deus. Mas tem de fazê-lo num diálogo impregnado de respeito.

“O ser humano tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado… A consciência é o centro mais secreto e o santuário do ser humano, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, afirma o Concílio Vaticano II (GS 16), usando claramente as palavras de Jeremias. Esta consciência não é para usar só em situações de extrema complexidade, raras, mas sim todos os dias, a cada decisão, a cada passo do caminho de procura de verdade e de rectidão.

A “nova” aliança entre Deus e a humanidade, baseada nesta Lei gravada na alma, acredita e aposta na capacidade de cada mulher e cada homem de ler e entender essas impressões digitais de Deus no coração humano.  A sua abertura é de uma “modernidade” que surpreende!  Obrigado, Jeremias!

Jn
15.03.2018

Se quiser, leia também a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/03/21/nos-queriamos-ver-jesus/

 

 

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Tempo de re-ler, tempo de voltar

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A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo (11.03.2018), 4º domingo da quaresma B: 2 Crónicas 36,14-16.19-23
Leia antes o texto bíblico, por ex. em http://www.evangeliumtagfuertag.org

Uma leitura religiosa da vida e da história da salvação é uma exigência da fé. A fé não se cansa de reflectir e perguntar pelo sentido de tudo o que (nos) acontece. Recusa-se a aceitar o “mero acaso” e é incompatível com o absurdo. Perguntas como estas: Porquê tudo isto? Que  (me/nos) quer Deus dizer? Onde esta(va) Deus em tudo o que acontece(u)?  Como reagir de forma coerente com a (minha/nossa) relação com Deus? Interrogações sobre interrogações. Uma fé que não se interroga nem interpreta está morta.”Crer é interpretar” ( Claude Geffré), sempre.

Assim sendo, é de primeira importância a questão dos modelos e paradigmas com que a fé interpreta ou das imagens de que dispõe para a leitura dos acontecimentos e da vida.  O texto do Livro das Crónicas, por exemplo,  utiliza como modelo de leitura o princípio da retribuição: Deus retribui a fidelidade  do povo com bênção e a infidelidade com  o castigo. E daí toda a re-leitura da história de Israel a  que este autor desconhecido, o “Cronista”, aí pelos sec. IV a.C.  se dedica. O que correu mal – por exemplo, que os caldeus invadiram Jerusalém, incendiaram o templo e levaram para o exílio os sobreviventes – só pode ser visto como castigo de Deus. E o que correu bem – que Ciro, rei dos Persas devolveu a liberdade e deu ordens para a reconstrução do templo –  é  uma recompensa de Deus.  Um esquema simples mas problemático, porque  insustentável. A conduzir necessariamente a um secularismo ateu ou a um pietismo fundamentalista.

Jesus não se cansou de tentar corrigir esta visão de Deus e da sua justiça.  Quando perante um cego de nascença, lhe perguntaram: “quem pecou, ele ou seus pais?” (João 9,2), Jesus é claro na sua resposta: nem ele nem os pais.  Não há castigo de Deus a seguir a cada pecado; não há castigo de Deus em toda a calamidade natural e muito menos temos de procurar a „responsabilidade“ de Deus atrás das situações e catástrofes que são claramente „humanas“, como sejam as guerras (mesmo que religiosas!), as invasões, as destruições, as injustiças na distribuição dos bens da terra.  Há que dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.  Só assim poderemos entender este Deus que se revela do lado das vítimas e que sofre com quem sofre. Que se esconde no rosto dos vencidos e não dos vencedores. Que amou de tal maneira o mundo (pecador) que entregou o Seu Filho para lhe dar a vida (ver texto do evangelho de João proposto para este domingo).

Como entender esta primeira leitura em contexto de caminhada quaresmal? Parece-me importante ler o texto do fim para o princípio. A um povo regressado do exílio, diante de uma cidade devastada e de um templo em ruínas, o Cronista pretende, com a sua re-leitura da história, injectar coragem.  Apesar da sua visão da justiça divina como retribuição, acredita que a conversão do povo é possível, que Deus não prolonga os seus castigos sem limite, “que todo o exílio tem retorno” (D. António Couto, mesa de palavras), que aparecerá sempre alguém a reconduzir os cativos  de Israel, que é possível reconstruir Jerusalém e reerguer o templo, “que a história nunca pode pode ser travada”.  Uma certeza da fé, um horizonte de esperança. E um apelo a voltar, ontem como hoje. Só assim se entende que tenha sida escolhido para este quarto domingo da quaresma.

Jn
05.03.2018

Se puder, leia também a reflexão feita a partir do evangelho deste domingo (IV Quaresma B) aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/03/13/deus-e-o-mundo-uma-historia-de-amor/

 

 

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Orientações para a vida

 

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A propósito do texto proposto para 1ª leitura deste domingo (04.03.), III Quaresma B: Êxodo 20,1-17.
Leia antes o texto bíblico.

Mandamentos? Preceitos? Leis? Martin Buber, o famoso filósofo judeu, prefere traduzir por “orientações”. Deus dá ao seu Povo orientações para o caminho e estabelece os parâmetros dentro dos quais o povo pode crescer na liberdade para que Deus o libertou e na aliança.

As “orientações” têm um valor em si: são uma mais-valia de humanismo, com novos padrões culturais que ainda hoje espantam.  Basta pensar, por ex., na proibição de matar ou de levantar falso testemunho… ou na obrigação de guardar para si e respeitar para os outros um dia de descanso semanal… Valores que em pleno sec XXI da era cristã em muitas regiões e culturas deste mundo estão longe de ser standard. São um extraordinário contributo do povo bíblico para o avanço cultural da humanidade.

Como produto cultural de um tempo e para um tempo, têm de ser sempre de novo revistos e reformulados. A partir do espírito que neles transpira desses tempos do Sinai, quando um povo de migrantes escravizados se mete na aventura do êxodo, da escravidão para a liberdade. Se os “Mandamentos” forem apresentados como “. lei” de resignação ou de conformismo, não estão a ser bem entendidos, não estão a ser bem interpretados. A interpretação dá vida à letra da lei.
As formulações negativas – não matarás, não roubarás, “não”.. “não”… – desafiam a permanentes formulações de carácter positivo, provisórias e situadas. Cada geração é chamada a reflectir o que pode significar apoiar a vida. Não matar, em si, pode ser pouco; é preciso promover a vida.

Mas – porque são palavra de um Deus que se apresenta como “Eu sou o senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, dessa casa da escravidão” – as “orientações” são também “caminho” espiritual. O Deus que libertou e liberta preocupa-se com a liberdade. O Deus que ama preocupa-se com a prática do amor. O Deus da vida preocupa-se com o respeito pelo vida. O Deus que a todos criou preocupa-se com o bem estar e com a partilha dos bens criados. O Deus que caminha com o seu povo preocupa-se com o caminho a percorrer.

As “orientações” – os mandamentos – são sinal da presença  de Deus – JaHWeH – no meio do Seu Povo. Orientar a sua vida por elas é um convite feito a todos os que nEle acreditam.

Jn
28.02.2018

Se quiser, ainda pode ler a reflexão feita a partir do texto do evangelho deste 3º domingo da quaresma B, aqui disponível no arquivo deste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2015/03/06/deus-sem-templo/

 

 

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