D. Manuel Martins

manuel martins

Deixou-nos o „Bispo de Setúbal“ (24.09.2017).

„Bispo de Setúbal“:  o título pertence-lhe. “ O Bispo de Setúbal“, sem mais, era ele, só ele. Não só por ter sido o primeiro, mas porque Manuel Martins, homem do Porto, criou em Setúbal um perfil de bispo que não conhecíamos em Portugal: o perfil de bispo criado não a partir de competências eclesiásticas mas a partir dos desafios da realidade do mundo.  O mundo que o formou e lhe deu esse perfil de bispo foi essa região de Portugal, a sul de Lisboa e à margem do Alentejo, nos anos que se seguiram à revolução.  Manuel foi um bispo de perfil „Gaudium et Spes“, esse documento da Igreja que começa com estas palavras: „As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração“ (GS 1).

Para surpresa  de muitos naqueles anos „quentes“, Manuel encontrou rapidamente em Setúbal o seu lugar como profeta e testemunha de um sonho de um país e de uma sociedade diferente.   Trabalhadores empobrecidos pelo desemprego ou ameaçados por ele;  pobres a a viver em habitações degradadas; doentes que tinham de ir para a fila a meio da noite para terem a certeza de serem atendidos; jovens a temer pelo seu futuro… são os temas das suas pastorais.

„Há fome em Portugal“, gritava a  voz de profeta, para desagrado dos responsáveis políticos da época. Não era agitação política: era denúncia de profeta. Enquanto outros bispos, ali bem perto, viviam preocupados em defender os seus privilégios e bens, as suas liturgias e tradições,  Manuel fez-se voz do Evangelho, na sua opção pelos pobres e excluídos.

Deixou-nos o „Bispo de Setúbal“.
Ficou-nos a sua herança: a imagem ou o sonho de uma Igreja diferente, a Igreja serva e pobre, ao lado dos humildes e empobrecidos!

Jn

 

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Crer é procurar

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A propósito do texto proposto como 1ª leitura para este domingo (24.09.2017), XXV comum (A): Isaías 55,6-9
Antes, leia o texto bíblico!

 

É a crentes, a homens e mulheres de fé, que Isaías (Deutero-Isaías) dirige estas palavras: “Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar” (Is 55,6)

Procurar Deus, buscar a Sua presença não é de modo nenhum uma atitude que traduza falta de fé, ou menos fé, mas, pelo contrário, é sinal de uma fé viva.
Quem acredita procura.
O crente não pára, nunca se dá por satisfeito, nunca diz “ja cheguei”.
O crente caminha, sabendo que os seus caminhos ainda não são inteiramente os caminhos de Deus.
O crente reflecte, autocritica-se, põe em dúvida as suas certezas, sabendo que os seus pensamentos estão muito longe de ser os pensamentos de Deus.
A verdade está na procura. A vida é caminho.
Deus, que é a Verdade Total, acompanha a procura do crente. Deus, que é meta, mostra-se como caminho a todos os que O procuram.

A “santidade” que Deus espera de cada um(a) não exige uma vida “impecável”, mas uma vida de procura, na consciência da fraqueza e dos limites humanos.
O ser humano, sabendo-se fraco e pecador, põe-se a caminho. E, ao caminhar, vai mudando. “De noite iremos, de noite, mas a tua luz nos ilumina” (S. João da Cruz).

“Criaste-nos para ti, ó Deus, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Ti” (Santo Agostinho). Cristãos satisfeitos não entendem o profeta que manda procurar. Quem está parado a apontar o dedo para os pecadores, não entendeu este Deus do perdão. „Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar“ (Is 55,7) .Crer é procurar!

jn

 

 

 

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O perdão

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A propósito do texto de Ben Sirá, proposto como primeira leitura para este domingo, 24º domingo comum A: Sir 27,30 – 28,7
Antes de ler esta reflexão, leia o texto bíblico !

O perdão encontra sempre uma ponte
para atravessar o abismo que separa as pessoas

O perdão liberta e alarga o coração de quem perdoa
e levanta quem é perdoado para que possa continuar caminho

Não há pecado que Deus não perdoe
mas o perdão de Deus tem que ser pedido em oração humilde

Só quem realmente perdoa
pode rezar até ao fim a oração do Pai Nosso

Perdoa e serás perdoado:
é na prática do perdão que nos mostramos mais humanos e mais parecidos com Deus

O perdão é uma pérola preciosa que Deus colocou no coração:
ao perdoar, abrimos e vemos o tesouro que temos dentro de nós!

É melhor perdoar
do que viver a vida toda na tristeza de não o ter feito (cf 2 Cor 2,7)

A humildade sabe pedir perdão e perdoar.
A arrogância não desculpa nem compreende

A arrogância atira a primeira pedra;
a autenticidade coloca-nos diante do espelho

“Quem se vinga incorrerá no castigo de Jahveh:
Ele avaliará com severidade os seus pecados” (Sir 28, 1)

Quando não pudermos perdoar directamente a quem nos faz mal
rezemos como Jesus: “Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem!” (Lc 23,34)

„Quantas vezes devo perdoar?! Irei até sete vezes?“ – perguntamos.
„Não te digo até sete vezes,  mas até setenta vezes sete“ – responde Jesus (Mt 18,21-22)

Jn
13.09.2017

 

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Outono

 

Outono_jn_2017

Na folha que cai da árvore dançando
lentamente
ao ritmo do verão que se despede
dominam as cores da saudade

No adeus forçado ou aceite
docemente
na tristeza sempre adiada da partida
correm lágrimas em seco

Na menina-dos-olhos
transparente
de luz inundada frágil brilhante
se destilam já as cores do arco-iris

É Deus que parece dizer
compadecente
não mais haverá dilúvio
nem de lágrimas nem de outono

No outono de tudo
acreditando que o tempo
é uma quimera
vale sempre a pena esperar a primavera!

Jn
Setembro 2017

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Como uma sentinela

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo 23º domingo comum A: Ezequiel 33,7-9. Leia antes o texto bíblico.

„Sentinela“ é o nome que as Testemunhas de Jeová (TJ) deram ao panfleto que distribuem de casa em casa ou propõem aos passantes nas ruas das nossas cidades. As TJ especializaram-se, como é sabido, em alertar o mundo para a proximidade do seu fim; são os arautos do fim do mundo.

Ser sentinela: assim Deus, pelas palavras de Ezequiel,  define a missão do profeta. A sentinela não dorme, está atenta ao que se passa à sua volta, coloca-se em posição de ver mais longe… para poder alertar o povo, avisar, alarmar, e assim convidar a agir, a mudar de vida se for o caso.

O profeta, sentinela de Deus no mundo, não é profeta de desgraças. Mas deve ter a coragem de falar da „desgraça“ que se aproxima se for o caso. Atento ao que se passa no mundo à sua volta, pergunta-se sem descanso – sem „dormir“ – que palavra, que „recado“ tem Deus para este mundo. Procura sem esmorecer a „Palavra de Deus“ a anunciar. E, se no seu anúncio, falar só da ameaça de Deus esquecendo que Deus é um Deus de amor e de perdão, corre o perigo de falsificar a imagem do próprio Deus.

A Igreja tem a pretensão de ser no mundo a „sentinela“ de Deus, de ter uma missão profética. Para isso precisa desta dupla atenção a Deus e ao mundo, típica do verdadeiro profeta. Uma atenção que não é de quem procura motivos para condenar, mas uma atenção preocupada e interessada de quem ama. Será que a tem?!

Das TJ tenho a impressão que a sua visão negativa do mundo e o seu fundamentalismo em relação à Escritura (lendo à letra a Bíblia, sem respeito pelo contexto) as impede completamente de serem vozes de profecia.

Nas Igrejas cristãs, acontece com frequência que somos positivamente surpreendidos pelo aparecimento de profetas tipo D. Hélder Câmara ou Martin Luther King, ou, nos nossos dias, o próprio papa Francisco. Qual sentinela vigilante, Francisco alerta a Igreja, a começar pela sua „cúria“ romana, para os perigos de um „eclesiocentrismo“ (de a Igreja se colocar no centro da mensagem) e entusiasma os cristãos a „sair“ para as periferias e aí testemunhar a preocupação de Deus pelo futuro do mundo.  Francisco fá-lo, contra todas as resistências que podem vir de todos aqueles que antes preferiam dormir e descansar…

E não há só as grandes figuras de profeta. Há muitos profetas por aí, na Igreja e na cidade… Quem os ouve? Quem os escuta?!

Se quiser, pode ler também a reflexão sobre o Evangelho deste domingo aqui disponível neste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/09/07/a-dinamica-dos-dois-ou-tres/

 

 

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Um Deus que seduz

A propósito do texto de Jeremias (20,7-9), proposto como primeira leitura deste 22º domingo comum A (03.09.2017). Leia antes o texto bíblico, por exemplo em http://www.evangeliumtagfuertag.org

„Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir…“ . Um cântico de amor? Não! Uma acusação, Um protesto do profeta junto do seu Deus. Seduziu-o e abandonou-o. Seduziu-o e „meteu-o ao barulho“, e não lhe deu o apoio que ele tanto precisava, no meio da solidão, do escárnio do povo, da frustração.

Destino de profeta? Condição do crente?  É o que parece. Quantas vezes o crente não se sente levado a fazer uma oração de protesto e de desilusão junto do seu Deus?

„Eu creio, Senhor. Mas é isto que queres para mim?“ „Eu tenho fé, mas como hei-de justificar a situação do mundo aos que me perguntam onde está o teu Deus?

Hoje, como ontem ao tempo de Jeremias, crer não é fácil. Mais difícil ainda assumir a causa de Deus num mundo como o nosso. Deus parece ter escolhido esta forma de se fazer presente: e prefere deixar o seu profeta, o seu amigo, sofrer, a impor  à força, a ferro e fogo, a sua mensagem.
No confronto actual com o terrorismo islamista, que vê „infiéis“ em todos os diferentes  e se autoriza a matar os „infiéis“ em nome do „seu“ Deus…  sabemos apreciar como nunca esta atitude de JaHVeH, o Deus de Jeremias e de Jesus,  e podemos apreciar esta atitude do profeta sofredor. Mais vale sofrer pela Palavra de Deus do que fazer sofrer. Mais vale levar a sua cruz que impô-la aos outros. Os seduzidos pelo amor de Deus – ao contrário dos fanáticos!! – vão por ai.

Se quiser, também pode ler o comentário ao evangelho deste domingo disponível neste blog em https://jamnunes.wordpress.com/2014/08/30/caminhos-de-fidelidade/

 

 

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Um coração que sabe ouvir

A propósito do texto proposto como primeira leitura para este domingo (30.07.017), 17º domingo comum A: 1 Reis 3,5.7-12

“Pelo sonho é que vamos” (Sebastião da Gama). Pelo sonho se exprimem verdades, projectos e desejos que na vida “acordada”, consciente, controlada, não ousamos pedir nem realizar. Mas se acreditamos num sonho e nos deixamos conduzir por ele, avançamos mesmo… Na Bíblia, o sonho é com frequência a porta e o espaço da revelação de Deus, um lugar de encontro, uma escada a ligar o céu e a terra.

Em sonhos, falou JaHVeH a Salomão, o jovem descendente do grande rei David, e desafiou-o a ousar pedir, a pedir sem receio. E, em sonhos, Salomão pediu que Deus lhe desse um “coração que saiba ouvir”, um coração “sábio” ou “inteligente” (conforme as traduções),  a fim de poder governar bem, conduzir o povo com discernimento, com sabedoria.

Deus gostou do pedido e concedeu-lho.

Aquilo de que todos os governantes mais necessitam é de um coração que saiba ouvir as necessidades e anseios, os sofrimentos e problemas do seu povo. Os pobres fazem tantas vezes a experiência de não encontrar ninguém que os atenda, ninguém que os ouça, que ninguém que os escute. Nesta escuta começa o discernimento. Da escuta depende tantas vezes a rectidão das decisões a tomar.
Mas não só os governantes. Cada um de nós precisa acima de tudo de um coração que saiba ouvir. As nossas relações uns com os outros e a nossa atitude na vida seriam bem mais fáceis se soubéssemos ouvir: ouvir a Deus e aos outros, ouvir à sua volta e dentro de si, ouvir os acontecimentos e os gemidos da vida.

Que bom seria se cada um sonhasse este sonho a que Deus convidou Salomão… E se o “sonho” da nossa vida e o pedido da nossa oração fosse este coração que sabe ouvir!

 

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